26 outubro 2006

Poder da internet no Brasil foi desconhecido por analistas políticos


O documentário A Revolução não será Televisionada, sobre o golpe contra Hugo Chávez por líderes da oposição, com o apoio explícito de emissoras de televisão e apoio tácito dos Estados Unidos é imperdível.

Deixa clara a manipulação de imagens e informação com objetivos políticos de uma forma nunca antes registrada na História. Só vendo para acreditar.

No Brasil, às vésperas da eleição, o juiz supremo delas, Marco Aurélio de Mello, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, compara o escândalo do dossiê ao de Watergate, aquele que derrubou Richard Nixon.
Fica implícito, pela declaração, que a crise brasileira pode tomar o mesmo rumo. Quando isso sai da boca do encarregado de arbitrar as eleições é de arrepiar.

No campo da mídia, comentaristas idiotas dizem não entender porque, apesar de tantos escândalos, Lula pode ser reeleito ainda no primeiro turno. São idiotas no sentido literal da palavra, que era usada na Grécia antiga para se referir àqueles que se preocupavam essencialmente consigo mesmos e ignoravam os interesses da comunidade. Os que ficavam de fora da polis eram chamados de idiotas. Isolados, faltava a eles capacidade de analisar e debater questões públicas e políticas. Pensei nos idiotas gregos quando notei a surpresa de nossos analistas com a resistência de Lula ao bombardeio dos escândalos.

Ainda não foi desta vez, escreveu um blogueiro. Ele anunciava o resultado de um levantamento indicando vitória do presidente-candidato em primeiro turno - mesmo depois de novas denúncias, que essencialmente transformaram os tucanos em vítimas de um complô petista.

Será que essa gente não sabe votar? - deve se perguntar o blogueiro.

Escribas de aluguel e jornalistas que sentem no ar para que lado sopram os ventos patronais dizem que se Lula vencer será com os votos dos grotões. Usam a palavra de forma pejorativa, como se o voto dos eleitores da periferia e do interior do Brasil valesse menos que os da classe média supostamente bem informada.
Eu me sinto à vontade para escrever sobre o atual governo: investiguei e denunciei integrantes dele e tive uma discussão com o presidente, ao lado de outros jornalistas, durante a visita de Lula à República Dominicana.
Mas o trabalho de um jornalista deve ser guiado pela imparcialidade.
A pior coisa que um repórter pode fazer é trombar com os fatos.
Nossos analistas ainda não se deram conta de que aplicam um modelito anos 60 para analisar um país que, para o bem e para o mal, é outro.

Em vez de trocar de povo, devemos trocar de analistas. Eles parecem escrever uns para os outros, como se pudessem pautar, da marginal do Tietê, a conversa no bar de uma esquina de Rondonópolis, Agudos ou Barreirinha. Franklin Martins chegou perto de entender o novo Brasil em recente entrevista à revista Caros Amigos, ao dizer que os tradicionais formadores de opinião não formam mais opinião no Brasil. Ele usou o exemplo da pedra no lago para explicar como o processo se dava no País: a partir da classe média, a opinião se difundia em ondas concêntricas, até atingir o povão.
Segundo Franklin, as ondas agora batem num dique e voltam: a classe C tem seus próprios interesses a defender - e já percebeu que eles nem sempre coincidem com os dos moradores do andar de cima, na definição de Elio Gaspari.

Houve um tempo em que o Rio de Janeiro, nossa gloriosa ex-Capital, era considerado a caixa de ressonância do Brasil. Nada de importante acontecia no País sem antes passar por Ipanema ou Leblon. Mais recentemente, pelo Jardim Botânico. A supremacia econômica paulista pôs fim à hegemonia carioca e o território que nos deu a Bossa Nova foi loteado entre o Comando Vermelho e políticos provincianos. O que se desfaz agora é a hegemonia midiática do eixo Rio-São Paulo - no linguajar dos acadêmicos da USP.

Não precisei consultar um deles para descobrir. Consultei meu guru político, o Cebolinha, editor de imagens da TV Globo de São Paulo. Ele teve paciência de Jó para acessar, na internet, os sites dos jornais mais importantes das cidades médias brasileiras. Fez uma descoberta simples: eles não tem dado tanto espaço e destaque à crise do dossiê quanto a mídia dos pretensos centros de irradiação da opinião brasileira, situados no eixo Rio-São Paulo. É uma faceta bastante simplória de um fenômeno que deveria aparecer no radar de nossos analistas, se eles se dessem ao trabalho de desviar o olhar, um pouco que fosse, para além do próprio umbigo.

Lembram do sonho de Juscelino, de interiorizar o Brasil com a construção de Brasília? Pois é, ainda que nem todos tenham notado, aconteceu. Pedro Bial, em reportagem para o Jornal Nacional, esteve lá, na cidade que surgiu do nada por conta do agronegócio.

Aconteceu, amigos: dá para atravessar o Brasil de Santa Maria a Imperatriz, sem passar pela costa. E existe vida neste Brasil interiorano, ainda que haja mais correspondentes da mídia brasileira em Nova York do que em Manaus. Se eu tivesse tempo, dinheiro e menos o que fazer, gostaria de submeter nossos comentaristas políticos a um breve questionário:
1. Qual foi a ocasião mais recente em que o senhor ou senhora usou transporte público? (Não vale o metrô de Paris);
2. Quando foi a sua mais recente visita a Dourados, em Mato Grosso do Sul?
3. Já esteve em Campo Grande ou Goiânia?
4. Foi recentemente a Parelheiros?
5. O senhor ou senhora já entrou numa lan house? Sabe o que é isso?

Com exceção da primeira pergunta, que é pura provocação, as demais fornecem pistas para desvendar o que não é necessariamente um crime: o Brasil costeiro morreu. E já vai tarde. Sejam benvindos a um país mais complexo, em que o poder dos coronéis locais, montados em suas concessões de emissoras de rádio e tevê, se esgarça nas franjas. Se você não sabe o que é uma lan house, nem foi a Parelheiros, não se sinta um idiota - no sentido grego da palavra. Lan house é internet de pobre. Um real por hora. Está lá, em todo bairro pobre de toda cidade brasileira. É na lan house que a periferia orkuta; que joga aqueles videogames em que o sangue jorra; que imprime currículos em busca de empregos inexistentes; que baixa o vídeo da Cicarelli. Em resumo, é na lan house que a periferia faz ligação direta no ônibus que nossos comentaristas supõem dirigir.

E, porque estive lá, descobri em Parelheiros o que talvez seja a classe C a que se referiu Franklin Martins. A classe média sem água e esgoto. A mais completa tradução da Belíndia, das Bélgicas e Índias que se fundem no Brasil: carro usado na garagem, máquina de lavar, videogame, dvd, internet discada, ligação clandestina de água, bacias para recolher água de chuva, fossa e água de chuveiro desembocando direto na rua.

Lá o eleitor conversa enquanto o telejornal está no ar, comenta os diálogos da novela, vai na lan house procurar emprego e conversar pelo messenger. Os estudantes dão copy e paste para fazer trabalhos de escola. Estejam certos de que os eleitores de lá não obedecem ao andar de cima. Então o Lula pode ser reeleito com os votos de revolucionários da periferia? Pelo contrário, ele terá os votos dos conservadores, no sentido literal da palavra. E o que estes eleitores querem conservar?
A tênue ascensão social que tiveram nos últimos quatro anos está expressa no grande crescimento das vendas da linha branca de eletrodomésticos e no espetacular crescimento do número de aparelhos de telefonia celular no Brasil. Ou alguém acha que as Casas Bahia se tornaram um fenômeno por causa da freguesia dos Jardins paulistanos ou da Barra da Tijuca? Na periferia das grandes metrópoles existe um movimento silencioso e não organizado que responde pela sigla de MCL, o Movimento Conservador de Lula.

Eleitores para os quais a perda de um emprego ou uma doença na família significa mergulhar de novo abaixo da linha da pobreza. Quando os eleitores de Paralheiros se juntam para fazer política, é para pedir água, creche, escola. Não dá para trazer asfalto? Faz pelo menos o meio-fio. No Brasil, só as ambulâncias são mais superfaturadas do que os marqueteiros. Duda Mendonça, vendedor de enciclopédias, fez fortuna às custas da ignorância dos políticos. Eles se merecem. Tanto quanto nossos veneráveis comentaristas, os gênios do marketing eleitoral brasileiro aplicam idéias belgas em nossa Índia. Eles ainda se imaginam no Brasil costeiro, lançando idéias continentais para um país que agora é local.

Toda política é local, diz o ditado.
Nunca foi tão verdadeiro. Agora, o que é bom para Campo Grande pode não servir para Goiânia.
Existem mercados e interesses econômicos locais. Sabem o que me contou o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo? Que as montadoras fugiram do ABC em busca de isenção fiscal e mão-de-obra mais barata. E o que aconteceu? Os metalúrgicos do Paraná, de Minas Gerais e da Bahia estão cada vez mais próximos de obter salários equivalentes aos do ABC. Qual o impacto econômico e político regional deste fenômeno? A maior rede de material de construção de Mato Grosso é de um empresário tosco e simpático que conheci em Nova York, que sentia saudade de arroz-feijão depois de três dias em Manhattan. O homem vai se tornar um fenômeno estudado pela Harvard Business School antes de ser descoberto pela mídia brasileira.
No cartão pessoal dele, além de nome e telefone, está escrita a meta de vendas que pretende atingir no ano.

Fez fortuna na rebarba do agronegócio. O mesmo agronegócio que exibe sua cara perversa ao avançar sobre o sul da Amazônia, devastando o cerrado e a floresta tropical para plantar gado e soja. Em todo o Centro-Oeste, milhões de brasileiros foram beneficiados direta ou indiretamente pelo sucesso do agronegócio e uma boa parte deles vai votar em Lula. Em Dourados, Mato Grosso do Sul, índios pedem esmola nas ruas mas os fazendeiros andam de carro importado, a classe média compra aparelhos de tevê de tela plana e os remediados compram rádio, bicicleta e dvd. O Wal Mart está chegando a esse novo Brasil. Vai ser interessante - talvez trágico - assistir ao confronto dele com as bodegas de esquina.

O Blockbuster vem em seguida. Vai detonar o videoclube que faz fiado?

Emprestando a imagem de Franklin Martins, eu faria um reparo. Não é que as ondas causadas pela pedra no lago atinjam o dique da classe C e refluam. É que não somos mais apenas um grande lago, onde ALGUNS POUCOS atiram pedras. Somos milhares de lagos, onde MILHARES atiram pedras - usando o You Tube, a rádio local, o jornal de bairro, a tradição oral do interior - expressa nas conversas de bar e no bate-papo das calçadas.
A falta de compreensão deste fenômeno deixa os gestores da grande mídia no escuro.

Já aconteceu de algum integrante do MST aparecer na TV sem ser chamado de bandido, arruaceiro ou baderneiro? Qual foi a última longa entrevista de um líder do MST em uma emissora de tevê, de rádio, em um jornal? Será que eles vão seqüestrar repórter para sair no jornal? Claro que não - vão fazer seu próprio jornal.

Milhões de integrantes de movimentos sociais organizados vão votar em Lula porque se enxergam nele ou, pelo menos, por considerá-lo o candidato menos ruim. Essa gente não é representada adeqüadamente na mídia do eixo Rio-São Paulo. Jornalistas, profissionais de classe média, em geral procuram suas fontes onde é mais fácil encontrá-las: na academia, em representantes de entidades que defendem interesses corporativos e nas assessorias de imprensa. Elas ganham para plantar entrevistados no rádio, nos jornais e na tevê.
É só ter o cuidado de fazer uma pesquisa: quantos centímetros de jornal e minutos de televisão são ocupados por analistas do mercado financeiro, profissionais liberais e especialistas de todo gênero?

Por que essas pessoas, em geral de classe média, expressariam na mídia os interesses da periferia, dos pequenos agricultores ou dos operários de chão de fábrica?

Por que a CUT decidiu criar seu próprio programa de rádio e de televisão? Por que a Força Sindical segue o mesmo caminho? O Brasil de Parelheiros vai aparecer na tevê a não ser em casos de chacina? O Jornalismo, que um dia foi tratado como serviço público, agora vende notícia como produto.
De um lado, a independência financeira dá às empresas maior liberdade de manobra diante das forças políticas.
De outro, Parelheiros é sub-representada no conteúdo porque não vivem lá os consumidores tradicionais de notícia. Os sem-terra não valem um tostão como notícia, a não ser quando mostram o que a elite quer ver neles: arruaça e banditismo.

Durante sua primeira campanha eleitoral, nos Estados Unidos, Bill Clinton mandou pendurar no comitê de campanha uma placa com os dizeres: "It's the economy, stupid". É a economia, estúpido. Uma forma de lembrá-lo de que americano vota com o bolso. Não deveria ser novidade para ninguém: brasileiro também vota com o bolso.

Nossos comentaristas se entregaram, nos últimos meses, a desqüalificar os programas de transferência de renda.

Os programas foram atacados como assistencialistas, fruto do populismo de um presidente pai dos pobres.
É um jogo de palavras para desqüalificar os votos dos nordestinos, uma maneira indireta de expressar o preconceito - essencialmente paulista e carioca - contra os retirantes, os cabeça-chata, os pau-de-arara, os paraíbas. Pode se discutir o mérito dos programas sociais e, como demonstrou o jornalista Ali Kamel no livro Não Somos Racistas, pode se argüir que seria mais inteligente investir em educação básica de qualidade para todos.
Mas não se deve esquecer que aqui também se manifestam interesses de classe: a elite paulistana não quer que o dinheiro de seus impostos seja investido com aquela baianada preguiçosa - até hoje proibida de usar os elevadores sociais nos edifícios chiques de Higienópolis, Moema e Itaim.

Descabida ou não, a transferência de renda turbinou o comércio das pequenas cidades nordestinas.

Serão milhões de votos para conservar Lula. Portanto, quando algum comentarista disser que não entende como o presidente pode ser reeleito - apesar de todos os escândalos - ou é incompetente ou está a serviço de alguma campanha. É ardiloso desqüalificar os eleitores de Lula, como se eles não soubessem votar, como se fossem mal informados ou ignorantes.

Luiz Carlos Azenha - Jornalista
Você assiste os debates?



Muitos me fazem esta pergunta e a muitos eu respondo, não eu não assisto os debates.

Em seguida vem outra, por quê?

Porque já não tenho mais estrutura para suportar tamanha cara de pau do chuchu. Ele mente o tempo todo, tenta enganar o tempo todo.

No dia posterior ao debate vemos os desmentidos:

As escolas de lata em são Paulo , existem ainda.

A segurança de São Paulo está caótica.

O rombo no orçamento do estado de São Paulo de 1,7 bi existe sim, as obras estão sendo paralisadas.

Ele mente quando fala nos investimentos da Caixa Econômica, talvez já buscando uma justificativa pra privatizá-la.

Ele critica o aerolula, mas não explica seus gatos com transporte de D. Lu em um jatinho pra campanha e nem seus gastos com transporte quando no governo de São Paulo que daria para comprar um aerolula, e muito menos o gasto com o transporte de um cachorro de helicóptero até Campos de Jordão.

Ao confrontar suas posses com a de Lula, mais uma vez ele demonstra ser um péssimo gestor, basta compararmos as origens de cada um com respectivos salários para vermos que ele gasta pessimamente, se ele não conseguiu conter os gastos de D. Lu na Daslu, como vai conter os gastos do Nakano no governo?

Para realizar parte de seu programa de governo ele terá que privatizar, reduzir os gastos com programas sociais, contrário ao que ele afirmou.

Para os que gostam de assistir, e eu não tenho nada contra, muito pelo contrário, é fácil observar que ele não tem como defender um programa sem nenhuma consistência, toda a sua atuação é orientada pelos marketeiros, no sentido de tentar jogar em possíveis falhas de Lula. Para quem gosta de futebol, é como um time pequeno e desestruturado, esperando a falha na defesa de um time maior para fazer o gol, o empate já é uma vitória.

Francamente, ficar diante de uma TV, duas a três horas olhando aquele boneco não sei se é de cera ou de pau, tentando me convencer de que é ético, honesto e que tem uma vida baseada na moral e bons costumes, só se Papai Noel me emprestasse o dele.

Estas considerações são com bases em trechos dos debates, assisti-los completos é tortura demais.



Paulo Nolasco de Andrade.
Fui convencido por alguém que sempre tentei convencer



Por Mário Milani



Avenida sete de setembro, centro de Curitiba.

Estaciono o carro cheio de adesivos. No vidro traseiro, meus candidatos preferenciais. Militante político de classe média desde os tempos da ditadura brava, com intensa atuação nos movimentos sociais, nunca deixei de me posicionar. Pautado no sonho de um Brasil diferente na sua diversidade, porém igual no seu estômago, nossa maior dificuldade sempre foi à tarefa de trazer para o nosso lado os mais humildes. Foi assim em todas as campanhas presidenciais, desde a primeira, em 1989. Os resultados adversos traziam dúvidas quanto a nossa capacidade de atrair as camadas mais populares.

Agora numa cena atípica, inusitada, travo um diálogo com um senhor de aparência simples, cidadão franzino, 56 anos mais ou menos, morador da periferia. De estatura mediana e olhos castanhos acesos, o guardador de carros José Agripino Cerqueira, ganha a vida no centro da cidade vendendo cartões de estacionamento público. Com passos firmes e largo sorriso no rosto vem ao meu encontro:

- Eu também vou votar no "home” – disse-me ele olhando para o adesivo grudado no pára-choque.

- Eu não. Respondi, justificando: o veículo é da minha filha. Ela vota no homem, mas eu não ainda não me decidi. Não estou certo de quem é o melhor para governar o Brasil nos próximos quatro anos.

Fiz-me de desentendido para saber os reais motivos para tanta convicção. Pensei, vou fazer como nos velhos tempos quando faltavam recursos para contratar institutos. As pesquisas eram feitas através das conversas com pessoas do povo.

- Quero que o senhor me dê motivos para votar no seu candidato!

Ele prestativo respondeu:

- Meu amigo, são muitos e bons motivos. Não só eu vou votar nele, mas toda minha família e todos os meus amigos do bairro. O senhor sabe quanta custa o preço do arroz, do feijão, da farinha?

- Não. Respondi fazendo-me de desinformado.

- Ontem fui ao mercado fazer as compras do mês. Paguei por cinco quilos de arroz R$ 4,59 reais. Quanto custava no tempo “deles”, no tempo do FHC? R$ 12 reais. No empório da minha Vila chegou a custar até R$ 15 um pacote de arroz quebrado, de terceira. E a carne, quando a gente comia, e quanto se pagava? R$ 12 até R$ 18 reais. A gente passava dias sem comer um pedaço de carne. E agora, um quilo de carne boa compra-se por R$ 7 reais. Já paguei R$ 6,80 por um quilo de alcatra. E a farinha de trigo? Comprei cinco quilos por R$ 3,99.

- Mas os economistas, e o outro candidato, falam que o Brasil não cresceu como deveria! – provoquei.

- Para nós, nunca cresceu tanto, melhorou muito, mudou nossa vida. Agora estamos comendo arroz, feijão e carne todo dia. Isso que é crescimento, mudança. Todo mundo lá no bairro reformou sua casa.

- Como assim?

- Quanto o senhor pagava pelo cimento na época deles? 22, 23, 24 até R$ 28 reais o saco de 60 quilos. Quanto que custa hoje?

- Sinceramente, não sei! – afirmei instigando.

- R$ 13 reais a saca. Todos os materiais de construção estão mais baratos. É só conferir nas lojas.

- E essa história de corrupção, dossiê...

- Isso é bobagem, dinheiro de pinga. Quando você entra numa disputa não joga sozinho, tem o adversário, tem o outro time. Assim é na política, eles vão arrumar todas as tramas para derrubar o Presidente do povo. Sobre o dossiê a gente brinca lá no bairro: -E esse tar de doce-ie é de comê ou é de bebê? – disse rindo indagando.

- O senhor ouviu falar no programa do governo chamado PROUNI? O filho do pobre agora pode sonhar em ir para a faculdade porque tem a garantia de uma bolsa paga pelo governo – explicou com orgulho.

- Pela primeira vez em 10 anos de casado levei minha patroa jantar numa churrascaria, num rodízio de carnes, um desejo antigo dela. Quando isso aconteceu pra nós da classe pobre? Nunca! – desafiou e completou:

- Eles sempre falavam que o culpado de tudo era a inflação. Pela primeira vez nos últimos anos ela está controlada e o salário teve um bom aumento. Quanto era, quanto é? – perguntou, puxando pela memória: - Lembra do chuchu? Era o grande causador da inflação. Hoje posso comprar minhas coisinhas em prestações baixas e iguais. – finalizou enquanto tirava do bolso um bilhete escrito à mão:

“Não vote no “xuxu”. Vote no Lula. Vote 13. Obrigado”.


Mário Milani é jornalista.
Memórias de um funcionário público


1 - Passei a vida toda lutando contra a ditadura militar e contra políticos da Arena, PDS, PFL, PSDB, PMDB e outros canalhas.

2 - Vivi a era FHC e vi o país ser posto à venda. Os bancos estaduais, para onde foram? Nossas estatais, até a Vale virou do rio salgado. Fala sério, você gostou do FHC?

3 - Vi Mais de 100 empresas públicas serem “privatizadas”, sem que o produto da venda tenha sido utilizado em favor do país. Você lembra quantos centavos custava a taxa mensal de manutenção de um telefone fixo? Sabe quanto custa agora? E o pior, nos vendemos o que era nosso, e agora pagamos a conta!!! A manutenção hoje custa dezenas de reais. Multiplique isto por cada telefone, em cada casa do Brasil. Você consegue?

4 - Fiquei 8 anos sem nenhum centavo de reajuste salarial.

5 - Vi colegas de trabalho, concursados, serem demitidos, através do malsinado RH 008.

6 - Vi todo o processo de desmonte da Caixa para a privatização.

7 - Vi milhões de brasileiros desempregados.

8 - Vi dezenas e dezenas de CPIs serem abortadas a custa de muita grana. Aliás, você sabe que o Alckmin teve sempre maioria total em São Paulo, na Assembléia, e com isso, impediu todas as CPI’s que tentaram fazer para investigar o governo dele e vários escândalos? Você ouviu a imprensa falar nisso?

9 - Vi o Procurador Geral da República do governo FHC ser chamado de “Engavetador Geral da República”.

10 - Vi a Polícia Federal de mãos amarradas.

11 - Vi o FMI mandando e desmandando e os Governos dizendo “amém”.

12 - Vi um país que gerou apenas 8 mil empregos mensais durante 8 longos anos, isso mesmo, oito.

13 - Vi trabalhadores escravos.

14 - Vi e vivi. Participei de dezenas de passeatas.

15 - Vi o “pensamento único” do PSDB calando (ou “comprando”) os jornais, rádios e emissoras de TV.

16 - Vi o Banco Central “doando” milhões de dólares para os banqueiros falidos salvarem suas peles.

17 - Vi milhares de micros e pequenas empresas fechando suas portas para dar lugar aos importados pela paridade do dólar.

18 - Vi o escândalo da compra de votos no Congresso (que atingiu a casa dos bilhões de reais) para alterar a Constituição e permitir a reeleição de FHC.

19 - Vi a grande imprensa se calar e ser cúmplice dessa mesma compra de votos para a reeleição (que foi muito maior do que o tão alardeado “mensalão”). Alguém lembra do Sr. X, do deputado com nome de cantor que foi pego com a mão na massa? A Polícia Federal conseguiu atuar corretamente no caso? Alguém foi condenado? Você acha que aquilo foi abafado?

20 - Vi o escândalo do SIVAM, no qual FHC e seu amigo Chico Graziano estavam por trás de tudo... Empresas estrangeiras duelando para ver quem compartilhava a maior propina ... lembram?

21 - Vi muitos e muitos outros escândalos como a farra do Proer, caixa 2 de campanhas, propina nas privatizações, TRT paulista, gampos telefônicos, o caso Marka/Fonte Cindan, o caso “Eduardo Jorge”, o rombo da Sudam, desvios da Sudene, a violação do painel do Senado, as relações podres com o banqueiro Daniel Dantas, etc.

Agora que o Brasil gera mais de 100 mil empregos mensais.

Que há luz para todos, vagas para estudos, bolsas-família, bolsas de estudo, oportunidadas.

Que as indústrias batem recordes de produção.

Que o comércio bate recordes de venda.

Que o país bate recordes de exportações.

Que dispensamos a tutela do FMI.

Que o BB contrata milhares de novos empregados concursados.

Que são efetuados diversos Concursos Públicos.

Que estamos entrando em período de deflação.

Que 11 milhões de famílias são atendidas pelos programas sociais do Governo.

Que milhares de jovens estão cursando faculdade, graças ao PROUNI.

Que a agricultura familiar está tendo acesso ao crédito e de fato sendo valorizada.

Que as pequenas e micros empresas voltam a abrir portas.

Que a Polícia federal atua sem amarras e desbarata uma quadrilha atrás da outra, como nunca em toda a sua história (inclusive pessoas ligadas ao PT e ao Governo).

Que a fiscalização da Receita Federal está fazendo as grandes empresas e bancos recolherem impostos, tanto que a Receita Federal também bate recordes de arrecadação).

Que o Ministério do trabalho fiscaliza as empresas (o FGTS também bate recordes históricos de arrecadação) e está erradicando o trabalho escravo no campo.

Que o preço dos alimentos caiu pela metade nos supermercados.

Agora vem alguém me pedir para ir às ruas contra tudo isdo??!!!

Meu amigo: TÔ FORA!!!

Não vou fazer parte dessa campanha anti PT/Lula, (lançada por uma elite que se sente ameaçada e integrada por muita gente desinformada e dirigida pela mídia, por uma parte mal-intencionada da mídia, ou bem intencionada com o pacto das elites).

Estou pronto para ir às ruas pedir investigação de quaisquer atos de corrupção praticados por quem quer que seja.

Que a Polícia Federal, Ministério Público Federal e outras instituições sérias investiguem com total isenção, e que a Justiça puna exemplarmente todo aquele que tenha praticado irregularidade.

É preciso conhecer para poder opinar. Pensem bem...


Pedro Fortunato de Oliveira - Funcionário público
Vamos lembrar de oito anos de ética



Um estudioso de São Paulo, Altamiro Borges, recuperou brevemente a nossa memória política da década recente e a colocou na rede. O sociólogo Rogério Chaves enxugou o texto, que envio a vocês na esperança de que possa contribuir com o debate - e para que não esqueçamos dos anos tucanos.

A) Logo no início do governo de FHC, denúncias de corrupção e tráfico de influências no contrato de US$ 1,4 bilhão para a criação do Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam) derrubaram um ministro e dois assessores presidenciais. Mas a CPI foi esvaziada pelos aliados do governo e resultou apenas num relatório com informações requentadas ao MP.

B) Pouco depois, em agosto de 1995, eclodiu a crise dos bancos: Econômico, Mercantil e Comercial. Através do Proer, FHC beneficiou com R$ 9,6 bilhões o Banco Econômico numa jogada política para favorecer o seu aliado ACM. A CPI instalada não durou cinco meses, justificou o socorro aos bancos quebrados e nem sequer averiguou o conteúdo de uma pasta rosa, que trazia o nome de 25 deputados subornados pelo Econômico.

C) Em novembro de 1996 veio à tona a falcatrua no pagamento de títulos no DNER. Os beneficiados pela fraude pagavam 25% do valor destes precatórios para a quadrilha que comandava o esquema, resultando num prejuízo à União de quase R$ 3 bilhões. A sujeira resultou na extinção do órgão, mas os aliados de FHC impediram a criação da CPI para investigar o caso.

D) Em 1997, gravações telefônicas colocaram sob forte suspeita a aprovação da emenda constitucional que permitiria a reeleição de FHC. Os deputados Ronivon Santiago e João Maia, ambos do PFL do Acre, teriam recebido R$ 200 mil para votar a favor do projeto do governo. Eles renunciaram ao mandato e foram expulsos do partido, mas o pedido de uma CPI foi bombardeado pelos governistas.

E) Num nítido estelionato eleitoral, o governo promoveu a desvalorização do real no início de 1999.

F) Para piorar, socorreu com R$ 1,6 bilhão os bancos Marka e FonteCidam - ambos com vínculos com tucanos de alta plumagem. A proposta de criação de uma CPI tramitou durante dois anos na Câmara Federal e foi arquivada por pressão da bancada governista.

G) Durante a privatização do sistema Telebrás, grampos no BNDES flagraram conversas entre Luis Carlos Mendonça de Barros, ministro das Comunicações, e André Lara Resende, dirigente do banco. Eles articulavam o apoio a Previ, caixa de previdência do Banco do Brasil, para beneficiar o consórcio do banco Opportunity, que tinha como um dos donos o tucano Pérsio Árida. A negociata teve valor estimado de R$ 24 bilhões. Apesar do escândalo, FHC conseguiu evitar a instalação da CPI.

H) Em 2001, chafurdando na lama, o governo ainda bloqueou a abertura de uma CPI para apurar todas as denúncias contra a sua triste gestão. Foram arrolados 28 casos de corrupção na esfera federal, que depois se concentraram nas falcatruas da Sudam, da privatização do sistema Telebrás e no envolvimento do ex-ministro Eduardo Jorge. A imundice no ninho tucano novamente ficou impune.

I) Secretário-geral do presidente, Eduardo Jorge foi alvo de várias denúncias no reinado tucano: esquema de liberação de verbas no valor de R$ 169 milhões para o TRT-SP; montagem do caixa-dois para a reeleição de FHC; lobby para favorecer empresas de informática com contratos no valor de R$ 21,1 milhões só para a Montreal; e uso de recursos dos fundos de pensão no processo das privatizações. Nada foi apurado e hoje o sinistro aparece na mídia para criticar a falta de ética do governo Lula. E apesar disto, FHC impediu qualquer apuração e sabotou todas as CPIs. Ele contou ainda com a ajuda do procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, que por isso foi batizado de engavetador-geral. Dos 626 inquéritos instalados até maio de 2001, 242 foram engavetados e outros 217 foram arquivados. Estes envolviam 194 deputados, 33 senadores, 11 ministros e ex-ministros e em quatro o próprio FHC. Nada foi apurado, a mídia evitou o alarde e os tucanos ficaram intactos. Lula inclusive revelou há pouco que evitou reabrir tais investigações - deve estar arrependido dessa bondade! Diferente do reinado tucano, o que é uma importante marca distintiva do atual governo, hoje existe maior seriedade na apuração das denúncias de corrupção. Tanto que o Ministério da Justiça e sua Polícia Federal surgem nas pesquisas de opinião com alta credibilidade. Nesse curto período foram presas 1.234 pessoas, sendo 819 políticos, empresários, juízes, policiais e servidores acusados de vários esquemas de fraude - desde o superfaturamento na compra de derivados de sangue até a adulteração de leite em pó para escolas e creches. Ações de desvio do dinheiro público foram atacadas em 45 operações especiais da PF. Já a Controladoria Geral da União, encabeçada pelo ministro Waldir Pires, fiscalizou até agora 681 áreas municipais e promoveu 6 mil auditorias em órgãos federais, que resultaram em 2.461 pedidos de apuração ao Tribunal de Contas da União. Apesar das bravatas de FHC, a Controladoria só passou a funcionar de fato no atual governo, que inclusive já efetivou 450 concursados para o trabalho de investigação. A ação do governo do presidente Lula na luta decidida contra a corrupção marca uma nova fase na história da administração pública no país, porque ela é uma luta aberta contra a impunidade, garante Waldir Pires. Diante de fatos irrefutáveis, fica patente que a atual investida do PSDB-PFL não tem nada de ética. FHC, que orquestrou a recente eleição de Severino Cavalcanti para presidente da Câmara, tem interesses menos nobres nesse embate. Através da CPI dos Correios, o tucanato visa imobilizar o governo Lula e desgastar sua imagem, preparando o clima para a sucessão presidencial. De quebra, pode ainda ter como subproduto a privatização dos Correios, acelerando a tramitação do projeto de lei 1.491/99, interrompida pelo atual governo, que acaba com o monopólio estatal dos serviços postais.

DIA 29 É LULA DE NOVO COM A FORÇA DO POVO!!!



Paulo Nolasco de Andrade - Transcrito

25 outubro 2006

ANÁLISE - PESQUISA DATAFOLHA

Por que Lula dispara?

Se nenhum cataclismo ocorrer até domingo, Lula baterá Alckmin por mais de 22 pontos de diferença. Por que um candidato dado como quase derrotado pela imprensa há 3 semanas subiu tão rapidamente? A resposta pode estar à esquerda...



Na noite de terça-feira (24), o Datafolha divulgou dois números definitivos: Lula 61%, Alckmin 39%. Com 22 pontos percentuais de diferença entre os candidatos, tendendo a aumentar, a peleja está decidida, caso céus e terras não se movam (no Brasil, tudo pode acontecer, inclusive nada, como lembrava o Barão de Itararé).

Colunistas da grande imprensa, que não esconderam suas preferências para com o candidato tucano, jogaram a toalha nos últimos dias. Até mesmo Arnaldo Jabor, o “rebelde a favor”, na definição do cartunista Jaguar, sentenciou: “Dia 29, Lula deverá ser reeleito. Favas contadas”.

Qual o mistério de um candidato que, mesmo tendo alcançado 48,7% no primeiro turno, era apresentado em 2 de outubro como virtual derrotado? Qual o segredo destas eleições, cuja grande surpresa foi não haver surpresas? Cuja grande virada, como muitos esperavam, foi não ter havido virada alguma?

O terreno da política
Longos debates se seguirão ao 29 de outubro para se avaliar o ocorrido. Mas a mudança tática feita pelo candidato petista nas últimas semanas é digna de nota. A disputa realizada até 1º. de outubro, pautada pela marquetagem e por querelas para se saber se teríamos “choque de gestão” ou “choque de ética” mudou de patamar. Adentramos agora o sacrossanto terreno da política, o que é uma bênção para o país.

Lula conseguiu mudar a lógica do moralismo duvidoso de Geraldo Alckmin – o mesmo que bloqueou 69 CPIs na Assembléia Legislativa de São Paulo – através do questionamento das privatizações da era tucana. Ao invés do campeonato para ver quem é mais ladrão, algo de responsabilidade do Ministério Público, da Polícia Federal e da Justiça -, tivemos o início de um enfrentamento sobre concepções de Estado e da esfera pública. Não é pouco, não é pouco!

Tudo indica que Lula cresceu por mover-se para a esquerda, por colocar mais claramente que não tentará esmagar aspirações justas dos países vizinhos, como a Bolívia, por declarar não baixar a cabeça para os Estados Unidos e por se colocar ao lado dos que lutam por mais Justiça. Pode ser que o segundo mandato não materialize estas premissas, caso não haja muita pressão a partir de baixo. Mas elas estão plasmadas na consciência popular.

Lula cresce entre os eleitores de Heloísa Helena, entre os que desejam um governo melhor que o atual. E Alckmin cai por aparecer como um produto das elites endinheiradas.

O corte de classe indicado pelas pesquisas é algo inédito na cena brasileira. É bom Lula olhar com carinho para isso. Resta saber se ele estará à altura desse desafio num possível segundo mandato.

Repetindo: se nenhum cataclismo acontecer até domingo...

Fonte: Carta Maior