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21 novembro 2008

Barak Obama: mais do mesmo?

Barak Obama: mais do mesmo?

Por Elaine Tavares – jornalista

Tenho acompanhado as declarações de várias lideranças latino-americanas sobre o novo presidente dos Estados Unidos e só posso concluir que estejam sendo extremamente diplomáticas e educadas. Penso que numa situação como esta, quando um novo presidente assume o cargo, deve ser de bom tom dar as boas vindas e fazer prognósticos de mudanças, de bom governo e de bons auspícios. Mas, cá com meus botões, creio que esta gente que hoje dirige países importantes como a Venezuela, Bolívia, Equador e Paraguai - que estão virando o leme e dando passos na direção de uma outra forma de organizar a vida - deveria colocar as barbas de molho.

É fato que a eleição de um homem negro para a presidência dos Estados Unidos é um acontecimento histórico. Quem conhece as práticas da Ku Klux Kan e a faceta racista do país do norte – que inclusive o levou a uma sangrenta guerra civil entre 1861 e 1865, causadora de quase um milhão de mortes - sabe da importância disso. Mas, de que vale ser negro e quebrar um paradigma se não se quebrar a política deste que é um dos partidos mais antigos do mundo, nascido de uma dissidência do que era o Partido Democrata-Republicano, fundado por Thomas Jefferson em 1793? É o que pretendemos questionar!

História de conservadorismo

As eleições nos Estados Unidos foram mostradas de forma exaustiva na televisão. No geral, os editores dos jornais mais importantes da noite esbanjaram a visão de suas mentes colonizadas. Sequer falaram dos demais candidatos, como se só os partidos Republicano e Democrata estivessem participando do pleito. Pois havia mais gente no páreo. Disputaram ainda dois candidatos independentes (lá é possível ser candidato sem partido), um do Partido da Constituição, um do Partido da Liberdade, um do Partido Socialista e uma candidata do Partido Verde. E o mais grave é que na reportagem da Rede Globo, William Bonner divide o Congresso estadunidense entre a bancada democrata, a bancada republicana e uma pequena parte "sem posição". Ora, os 4% não são sem posição, eles tem posições muito claras, diferentes dos partidos dominantes. Já no dia da eleição alguns jornalistas chegaram a momentos apoteóticos, vibrando de prazer com o que chamavam do "regime mais democrático do mundo". Até aí tudo bem, são propagandistas a soldo. Cumprem seu papel. Por isso cabe a imprensa alternativa estabelecer um olhar crítico.

A história do povo dos Estados Unidos contempla um passado glorioso. O país foi a primeira colônia neste continente a se libertar e criar uma nação, e tudo isso fruto de movimentos e revoltas populares, como bem conta o historiador Howard Zinn, no seu livro "A Outra História dos Estados Unidos". Mas, o que ficou nos registros e na memória das gentes foi o conto da bravura e do heroísmo dos "Pais da Pátria", como George Washington, Benjamin Franklin, Abraham Lincoln e Thomas Jefferson. O resultado deste momento fundador da democracia foi a destruição bárbara dos povos originários e o enriquecimento destas lideranças lideranças. A Constituição do país, datada de 1787, que ainda hoje faz aflorar lágrimas aos olhos dos "defensores da liberdade", foi, no entender do historiador Charles Beard, citado por Zinn, um documento que serviu para atender aos interesses bem demarcados de determinados grupos dominantes e que deixou de fora os anseios de praticamente metade da população.

Pois foram estes interesses que levaram à fundação do Partido Democrata-Republicano em 1793, aglutinando a classe dominante até 1836, quando houve um racha a partir das posições de Andrew Jackson que, então presidente, decidiu acabar com o Colégio Eleitoral e não acatar as decisões do Congresso, além de permitir a invasão, por brancos, de milhares de hectares de terras indígenas, expulsando-os para longe de seus lugares originários. Foi no seu governo que houve a diáspora da brava nação Cherokee. Com a criação do Partido Democrata, Jackson passou à história como primeiro presidente deste partido. A gênese da divisão não teve nada a ver, portanto, com divergências ideológicas de fundo, embora alguns analistas avaliem que o partido saiu da órbita conservadora, passando a liberal no início do século XX. Mas, os fatos mostram que não é bem assim.

As políticas dos democratas

O segundo presidente democrata que tem especial participação na vida dos povos da América Latina. Foi Thomas Woodrow Wilson , que governou os Estados Unidos de 1912 a 1921, atravessando a primeira guerra mundial. Ele jurou manter o país fora do conflito mas acabou justificando a entrada na guerra com o mesmo velho mantra defendido por quase todos os presidentes intervencionistas: "é para garantir a democracia no mundo". Sempre foi chamado de idealista lá no seu país e até ganhou o Nobel da Paz por sua atuação no fim da primeira guerra. Foi durante seus mandatos (cumpriu dois), que disseminou a doutrina da "livre determinação dos povos", um belo discurso que ele mesmo não cumpriu na prática. Wilson comandou várias intervenções militares na América Latina, invadindo o México durante o processo da gesta histórica de sua revolução popular em 1914, e depois a Nicarágua, o Panamá, a República Dominicana e o Haiti. Os motivos: garantir a democracia. Pois sim!

Depois dele, outro presidente democrata assumiu importante papel na vida das gentes. Foi Franklin Delano Roosevelt, que acabou enfrentando a grande crise de 29 empregando o que ficou conhecido como "new deal", uma espécie de novo pacto com reformas que, de alguma maneira, estabilizaram o sistema para a proteção do mesmo. Seu programa protegia os grandes donos de terra e o empresariado, mas também oferecia sufuciente ajuda aos empobrecidos, evitando com isso uma explosão social. Foi no seu mandato também que os Estados Unidos viveram a segunda grande guerra, considerada uma das mais populares naquele país, uma vez que mais de 18 milhões de soldados foram mobilizados e grande parte da população contribuiu com a compra de bonus. A economia reaqueceu e a crise foi superada. Foi Roosevelt que, junto com Churchil e Stalin, assinou o tratado de Ialta, que na prática dividiu o mundo entre socialista e capitalista, estabelecendo zonas intocáveis de influência, a famosa Guerra Fria. Foi durante seu governo que assinou uma espécie de decreto (Ordem Executiva) que outorgava ao exército estadunidnese prender sem ordem judicial ou acusação formal todo e qualquer japonês que vivesse na costa oeste do país. No total foram confinados em campos de concentração, dentro dos Estados Unidos, mais de cem mil homens, mulheres e crianças, sendo que três quartos desta gente era nascida no país.

Roosevelt morre em 1945 e assume no seu lugar o também democrata Harry Truman, este responsável pelo maior crime de guerra já perpetrado: a bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki, que matou mais de 200 mil civis, num momento em que o Japão já estava praticamente rendido. Foi ainda no seu governo que foi criada CIA, agência de inteligência responsável por praticamente todos os golpes contra a democracia nos países da América Latina. É deste democrata a também famosa "doutrina Truman", que na prática significava a auto-outorgação do direito de intervir em qualquer país que ousasse enveredar pela via socialista. Por conta disso Os EUA invadiram a Coréia, o Irã, Vietnã e Guatemala e meteram sua colher em outros tantos países de nuestra América, finaciando grupos anti-comunistas. Criou ainda o Plano Marshall, que visava enviar dinheiro para os países, comprando a consciência dos governantes para que não aderissem ao socialismo. Foi o início do processo de atuação dos malfadados "assassinos econômicos", denunciados por John Perkins, que assim agiu durante parte de sua vida. Naquele período os Estados Unidos invadiram a Iugoslávia e a Grécia, em nome da democracia.

Outro momento crucial da vida estadunidense foi vivido neste governo democrata. A Instituição do Comitê de Investigações das Atividades Anti-Americanas, comandado pelo Senador Joseph MacCarthy, uma espécie de caça às bruxas que prendia e destruía qualquer um que fosse acusado de ter idéias comunistas. Foram os anos dourados do império, mas à custa de muita dor, tanto de sua gente como de populações de vários países do mundo.

Outro presidente democrata com uma ficha nada limpa é John Fitzgerald Kennedy, que apesar de até hoje ser considerado o "queridinho da América", foi quem teve de arcar com as consequências da frustrada tentativa de invasão à Cuba organizada pela CIA bem no comecinho de seu governo. É ele também quem aquece o conflito no Vietnã, o que mais tarde vai explodir numa guerra de 10 anos, e invade o Laos. Na América Latina cria a Aliança para o Progresso, que nada mais é do que a sequência do Plano Marshall. Dinheiro à rodo para comprar a fidelidade das elites governantes dos países que os Estados Unidos considera seu quintal.

Ainda nos anos 60 vamos encontrar mais um democrata no poder, Lyndon Baines Johnson, que assume depois da morte de Kennedy. Com ele os Estados Unidos assumem de vez o confronto no Vietnã, com o mesmo velho papo de garantir a democracia. Também invadem o Panamá, a República Dominicana e o Camboja em nome da liberdade.

Jimmy Carter é mais um democrata no poder e foi um dos poucos que tentou a paz . Por conta disso é considerado por alguns analistas como "o mais fraco presidente da América".. Tentou mediar acordos com Israel e Palestina e conseguiu a paz entre Egito e Israel. Foi ele também que assinou, com Omar Torrijos, um tratado que devolvia o canal do Panamá ao povo daquele país, e buscou uma política de distensão com os países comunistas. Assinou tratados com a China, buscou reduzir as armas nucleares e tentou aproximações com Fidel Castro. Ainda assim, enfrentou grande tensão com o sequestro de estadunidenses no Irã e foi no seu governo que conseguiu grandes volumes de recursos para o orçamento militar. Foi com Carter que iniciou na América Latina o processo de abertura, uma vez que quase todos os países viviam ditaduras duramente impostas pelos Estados Unidos. De qualquer forma Carter não é visto como um bom exemplo lá dentro e, segundo seus adversários, foi "muito mole" durante a revolução iraniana além de "permitir", sem criar uma guerra, a ocupação do Afeganistão pela União Soviética.

O mais recente democrata no poder foi William "Bill" Jefferson Clinton, que governou por dois mandatos, entre 1993 e 2001. Visto como simpático galã, charmoso e carismático ele governou agressivamente no que diz respeito a política externa. Invadiu o Iraque, o Haiti, o Zaire, a Libéria, a Albânia, a Colômbia e o Afeganistão. Um currívulo e tanto para um cara "bonzinho".

E então, que será de Obama?

Este é um brevíssimo resumo da história dos democratas - que praticamente em nada se diferem dos republicanos - que governam o país na mesma lógica do "destino manifesto", ou seja, de que há uma missão divina dada aos Estados Unidos de ser o guardião da "democracia" mundial e que, por conta disso, o país pode intervir quando bem entender. É claro que se precisa perceber a palavra democracia aí significando "toda e qualquer ameaça aos interesses das grandes corporações", já que o que está em jogo raramente é o interesse das gentes, mas sim das empresas.

Assim, as esperanças que se colocam sobre o histórico presidente negro do país que é polícia do mundo devem ser relativizadas. A experiência do democrata Jimmy Carter, ridicularizado até hoje por não ter empreendido nenhuma guerra, não é um exemplo que os estadunidense gostariam de ver seguido. Também é bom pensar que lá está estabelecida uma crise financeira sem precedentes e que é comum ao império safar-se das crises com uma boa guerra. Como bem dizia Roosevelt, o Theodore, em 1897, numa carta a um amigo: "em estrita confidência, eu quase que agradeceria qualquer guerra, pois creio que esse país necessita de uma". É preciso estar muito cegado pela ideologia disseminada pelos meios de comunicação para crer que Obama, apenas por ser negro e vir das classes mais empobrecidas, possa deixar de seguir a natureza do seu partido. Basta esperar e já vamos ver suas posições sobre o Iraque, Palestina, Venezuela, Cuba, só para citar alguns. O tempo dirá.

Fonte: Blog da Elaine

14 novembro 2008

E se Obama fosse africano?

E se Obama fosse africano?

Por Mia Couto

Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.

Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.

Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de "nosso irmão". E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.

Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: " E se Obama fosse camaronês?". As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.

E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?

1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.

2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.

3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente "descobriram" que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado 'ilegalmente". Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.

4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um "não autêntico africano". O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos "outros", dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).

5. Se fosse africano, o nosso "irmão" teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada "pureza africana". Para estes moralistas – tantas vezes no poder, tantas vezes com poder - a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.

6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.

Inconclusivas conclusões

Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.

Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.

A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos - as pessoas simples e os trabalhadores anónimos - festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa.

Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.

No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.

Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia

12 novembro 2008

Obama e o muro anti-América Latina

Obama e o muro anti-América Latina


Barack Obama está sendo festejado, pela vitória nessas eleições históricas nos EUA, por velhos amigos e por velhos inimigos.

Houve até uma nota assinada por Hugo Chávez, presidente da Venezuela, que mais frequentemente insulta do que elogia o ocupante da Casa Branca.

Como muitos outros presidentes latino-americanos, Chávez manifesta esperanças de que o governo Obama trabalhará para melhorar as relações na região.

O presidente da Venezuela resume o significado daquela vitória eleitoral: "é sinal de que a era de mudança que já se implanta na América do Sul pode estar chegando às portas dos EUA".

Parece ter razão.

Ao longo dos dois últimos anos, a América Latina vem assistindo ao fim de 60 anos de unipartidarismo no Paraguai, à eleição do primeiro presidente indígena na Bolívia, e o Chile já elegeu uma mulher à presidência, pela primeira vez na história.

'Movimento à esquerda'

O que tem sido definido, em geral, como "um movimento à esquerda" é resultado de várias e diferentes circunstâncias históricas e envolve pessoas e países com diferentes histórias e personalidades.

Em profundidade

Trata-se de uma dinâmica que também foi estimulada por instituições multilaterais, como a Unasul, União das Nações Sul-Americanas, que estreou com importante intervenção diplomática na crise constitucional boliviana.

Num momento crucial, aquele grupo conseguiu aproximar países politicamente diversos (Venezuela e Colômbia, por exemplo), que se comprometeram com respeitar a integridade territorial da Bolívia e a legitimidade de seu processo democrático.

Não há dúvidas de que a entidade supranacional desempenhou papel importante no movimento de evitar que aquela crise degenerasse.

Washington foi notável ausência, naquele processo.

Muitas das mudanças têm sido vistas como 'respostas' locais às políticas norte-americanas para a Região, sobretudo contra as agressivas políticas ditas neoliberais reunidas sob o título geral de "consenso de Washington".

Do norte, só vieram respostas confusas ou de declarada agressão, e o embaixador dos EUA na Bolívia foi acusado de intervir diretamente na campanha eleitoral, quando declarou que a eleição de Evo Morales afetaria gravemente as relações entre Bolívia e EUA.

Acertou a predição – embora por vias bem pouco diplomáticas.

Um ponto de vista local

A crise econômica em curso não recomenda nem sugere a possibilidade de qualquer "separação" econômica entre EUA e a América Latina, mas talvez já tenha sugerido fortemente alguma espécie de "separação" política.

Ocupada em tempo integral com duas guerras, Washington tem tido pouco tempo para dar atenção ao sul, e esse distanciamento foi acentuado pelo modo como a administração Bush atuou, de fato em todo o mundo, nos últimos oito anos.

Nos casos em que a América Latina apareceu no radar, as questões foram tratadas exclusivamente sob a perspectiva dos interesses domésticos dos EUA.

Embora 1/3 da população dos EUA – proporção que aumenta todos os dias – já seja constituída de hispano-hablantes, a idéia dominante nos EUA, sobre a América Latina, ainda está fortemente marcada pelo duplo espectro do tráfico de drogas e da imigração.

Os hispânicos, que são hoje a maior minoria nos EUA, ganharam voz pública e visibilidade, mas essa mudança ainda não está sendo nem considerada nem avaliada em todas as suas ramificações e conseqüências, nem é universalmente celebrada.

A deriva demográfica, somada à incerteza no campo econômico, gerou um discurso histérico sobre a imigração.

Esse discurso histérico está todas as noites nos noticiários norte-americanos, e ninguém duvida que é discurso dirigido à América Latina.

Antes da crise das finanças, muitos previam que as relações com a América Latina viessem a ser o tema dominante na campanha presidencial.

Não se chegou a isso. Mas – e sem qualquer repercussão na mídia (nem nos EUA nem na América Latina) – os 'problemas com o sul' geraram um dos mais dramáticos movimentos unilaterais do atual governo Bush: a decisão de construir um muro ao longo da fronteira sul dos EUA.

Cercar as fronteiras

Com 6.000 quilômetros a vigiar, o muro é obstáculo mais simbólico do que praticamente efetivo.

Como resposta política, os muros têm triste e vergonhosa história, e simbolizam coisas diferentes, conforme o lado em que se esteja, de cada muro.

Mais do que sinal de que os EUA tentam isolar-se, e visto do sul para o norte, o muro é clara rejeição de qualquer possibilidade de discussões multilaterais.

O subtexto mais sinistro, do ponto de vista dos EUA, é que o muro está sendo construído como uma última barreira contra a influência cultural, que chega com os imigrantes e que já está modificando irreversivelmente a sociedade norte-americana.

Obama votou contra a guerra do Iraque, mas votou a favor da construção do muro – movimento que caminha na direção oposta à percepção de todos, no mundo, de que sua história pessoal o tornaria menos cego, menos preconceituoso e mais conciliatório 'por natureza'.

Refrão sempre repetido pelos líderes latino-americanos, exceto na Colômbia – único país que teria a perder com qualquer mudança na política dos EUA para a América Latina – insiste em que nem o muro nem os bilhões de dólares consumidos na guerra aos traficantes conseguiram aplacar a demanda, nos EUA, por drogas ilegais e por mão-de-obra barata.

A América Latina tem sido alvo da propaganda dos lobbies que se rendem a importância dessa demanda econômica e trabalham para implementar solução unilateral para mais esse problema complexo, e que atacam a produção e a oferta de drogas e de mão-de-obra barata, mas não a demanda.

Deve-se esperar que as promessas feitas por Obama, em campanha, de buscar espaços comuns e soluções multilaterais, avance também para além das fronteiras dos EUA.

Deve-se esperar que, depois de empossado, o presidente Obama tenha tempo para olhar para o sul e ver além do muro, para reconhecer o mesmo movimento, as mesmas circunstâncias – animado, também o próprio Obama, pelo mesmo desejo de mudança – que o levou à Casa Branca.

Fonte: Al-Jazeera, 10-11/11/2008, Will Stebbins [editor chefe de America].

10 novembro 2008

Obama e os que sempre dizem não

Obama e os que sempre dizem não

Há um grupo de pessoas que se reivindica de esquerda, aliás, como representantes reais da esquerda. E que nunca dizem sim. Nem mais ou menos. Só apreenderam a dizer não.

São de fatos muito chatos. E por conta deles se criou o mito de que todos nós que não compartilhamos com a visão liberal do mundo também somos chatos.

A chatice da vez é em relação à eleição de Obama. Para eles continua tudo como dantes no quartel d´abrantes. Ou seja, com Bush ou Obama os EUA e sua política permanecem do mesmo tamanho.

Aliás, para esses, as coisas podem ainda ficar piores. Porque Obama, com a sua credibilidade e cara de bonzinho, poderia ainda piorar as coisas.

Não haveria nada simbólico na sua eleição. Nada que pudesse ser reivindicado como uma vitória da luta de um grupo grande de cidadãos planetários, especialmente estadunidenses, contra o bushismo e sua política.

Para esses também não há diferença alguma entre o governo Lula e seus antecessores, em especial, o último presidente que o antecedeu. Lula, ao contrário, estaria fazendo um governo mais comprometedor para a luta dos trabalhadores do que FHC.

Dureza.

Deve de fato ser dura ou mole demais a vida desses que insistem em enxergar o mundo pelas lentes da negação completa das suas idas e vindas, das contradições, das vitórias e derrotas, mesmo aquelas que não são absolutamente completas?

Aliás, o que seria uma vitória absolutamente completa das forças populares nos EUA?

A vitória de Obama foi a melhor construção do possível no atual estágio das contraditórias relações de poder na sociedade estadunidense. E por isso a celebrei e a celebrarei. E por algum tempo.

O fato de Obama ser negro também não significa nada para os que dizem não.

Eles de fato não estão entendendo nada, infelizmente. E são muito chatos.

Renato Rovai

Fonte: Revista Forum

Se não fosse o Brasil, jamais Barack Obama teria nascido

Se não fosse o Brasil, jamais Barack Obama teria nascido


Na noite do dia 25 de setembro de 1956, estreou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro a peça Orfeu da Conceição, do poeta brasileiro Vinícius de Morais (1913-1980). Esta peça é uma adaptação do mito grego do lendário cantor Orfeu, cuja lira, dotada de sons melodiosos, amansava as feras que vinham deitar-se-lhe aos pés.

Por Fernando Jorge (publicado originalmente em 22 de julho no blog Artigos de Fernando Jorge; reproduzido do blog de Luis Nassif)

Filho da musa Calíope, ele resgatou a sua esposa Eurídice do Inferno, após ela ter sido picada por serpente. A história de Vinícius decorre numa favela carioca, durante os três dias de carnaval.

Em 1959, o diretor francês MarceI Camus transpôs a peça para o cinema. Daí surgiu o filme Orfeu Negro, com músicas de Luiz Bonfá e Tom Jobim, a negra atriz americana Marpessa Dawn, os negros brasileiros Breno Mello, Lourdes de Oliveira e Adhemar da Silva.

Cheio de belas imagens, como a do romper do sol na favela, a do aparecimento da Morte numa central elétrica, e ainda com o som dos sambas empolgantes, a película baseada na obra do letrista de Garota de Ipanema, além de alcançar grande sucesso comercial, ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cinema de Cannes e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em Hollywood.

Pois bem, nesse ano de 1959, uma jovem americana de 16 anos, extremamente branca, sem um pingo de sangue negro, chamada Stanley Ann Dunham, nascida no Kansas, resolveu assistir em Chicago ao primeiro filme estrangeiro de sua existência. Foi ver o Orfeu Negro, só com atores negros, paisagens brasileiras, música brasileira, história brasileira.

Ela saiu do cinema em estado de êxtase, maravilhada. Adorou aqueles negros encantadores de um país tropical e logo admitiu: “Nunca vi coisa mais linda, em toda a minha vida”.

Depois de tal arrebatamento, a jovem Stanley embarcou para o Havaí. E ali, aos 18 anos, ela se tornou colega, numa aula de russo, de um jovem negro de 23 anos, Barack Hussein Obama, nascido no Quênia. A moça branca do Kansas, influenciada pelo filme Orfeu Negro, entregou-se a ele e dessa união inter-racial, nasceu em 4 de agosto de 1961 um menino, a quem ela deu o mesmo nome do pai e que é agora, aos 46 anos, o primeiro candidato negro à presidência dos Estados Unidos (Nota da Redação: o texto foi publicado antes das eleições presidenciais americanas de 4 de novembro).

Eis um detalhe perturbador: comparando duas fotografias, descobri enorme semelhança física entre o brasileiro Breno Mello, o Orfeu do filme Orfeu Negro, e o queniano Barack Hussein Obama, pai do filho da americana Stanley Ann Dunham.

No começo da década de 1980, ao visitar o seu filho em Nova York, a senhora Stanley o convidou para ver o filme Orfeu Negro. Segundo o depoimento do próprio Barack, no meio do filme ele se sentiu entediado, quis ir embora. Disposto a fazer isto, desistiu do seu propósito, no momento em que olhou o rosto da mãe, iluminado pela tela.

A fisionomia da senhora Stanley mostrava deslumbramento. Então o filho pôde entender, como se deduz da sua autobiografia, porque ela, tão branca, tão anglo-saxônica, uniu-se ao seu pai, tão negro, tão africano...

Não há dúvida, a sexualidade às vezes percorre caminhos misteriosos, que alteram de modo decisivo os rumos da história universal.

Se não fosse o fascínio da branca mãe de Barack Obama pelo filme Orfeu Negro, ela não se entregaria ao rapaz queniano, um preto retinto. A rigor, sem o Brasil, sem a história do poeta brasileiro Vinícius de Morais, o filme Orfeu Negro não existiria. Portanto, se não fosse o Brasil, jamais Barack Obama teria nascido.

Apresenta uma lógica perfeita, a nossa conclusão. E avanço mais: se ele for eleito, o meu país, a pátria de Lula, será a causa da mudança da historia dos Estados Unidos. Aliás, o Brasil já mudou essa história...

* Fernando Jorge é escritor e jornalista, autor do livro Vida, Obra e Época de Paulo Setúbal — Um Homem de Alma Ardente

Obama tem de responder por oito anos de mentiras, de Bush

Obama tem de responder por oito anos de mentiras, de Bush

Robert Fisk


Advogados norte-americanos que defendem seis argelinos num julgamento de pedido de habeas corpus em Washington, essa semana, ouviram coisas muito estranhas sobre o serviço secreto dos EUA depois do 11/9. Dentre milhões de relatórios "originais" de espiões norte-americanos e suas "avaliações" sobre o mundo, apareceu um alerta da CIA do Oriente Médio, sobre um possível ataque estilo kamikaze contra uma base da Marinha dos EUA numa ilha do sul do Pacífico. O único problema é que tal base da Marinha não existe na tal ilha e nenhum navio de combate da 7ª Frota dos EUA jamais esteve lá. Em tom de máxima seriedade, investigação militar do Exército dos EUA informara, pouco antes, que Osama bin Laden havia sido visto comprando selos numa agência de correio de uma base militar dos EUA no leste da Ásia.

Que esse tipo de absurdo seja difundido pelo mundo por gente cuja missão seria defender os EUA na "guerra ao terror" mostra o tipo de ilha-da-fantasia no qual viveu o regime Bush nos últimos oito anos. Quem acredite que bin Laden faça compras numa lojinha de uma base militar norte-americana, acreditará que todos os presos são "terroristas", que todos os árabes são "terroristas", que podem ser executados sem julgamento, que "terroristas" tenham de ser torturados, que confissões arrancadas sob tortura gerem "informação", que Estados soberanos podem ser invadidos, que se pode roubar a agenda pessoal de telefones de qualquer um, nos EUA. Como Bob Herbert escreveu no The New York Times há alguns anos, o governo Bush precisava daquelas agendas, "porque contêm informação crucial sobre uma invasão de chineses em Terre Haute, Indiana, e votos de feliz aniversário para vovó, em Talladega, Alabama, para descobrir o esconderijo de Osama bin Laden". Nada foi capaz de deter Bush, em matéria de violar a Constituição dos EUA. De novidade, só, que o mesmo desrespeito à liberdade que sempre praticou no resto do mundo, Bush praticou também dentro dos EUA.

Como Barack Obama conseguirá consertar os danos hecatômbicos que seu predecessor, mentiroso, doentio, perpetrou por todo o planeta e, também, dentro dos EUA? John F. Kennedy disse uma vez que "os EUA, como o mundo sabe, jamais iniciarão uma guerra ". Depois do surto de medo, de Bush, e do "choque e horror" ("shock and awe") de Rumsfeld, depois de Abu Ghraib e Bagram e Guantanamo e interrogatórios secretos, como Obama conseguirá devolver seu país aos tempos de Camelot? O entusiasmo de nosso caro Gordon Brown, em mensagem sobre e-mails de espiões ingleses, é outro exemplo de o quanto a relação pervertida entre Blair e Bush ainda contamina também o corpo político na Inglaterra.

Dias depois de essa presidência-desastre finalmente ir-se para sempre, novas leis norte-americanas passarão a impedir que cidadãos britânicos visitem os EUA sem autorização especial dos serviços de inteligência. Que novas surpresas Bush reservará aos ingleses, antes do 20 de janeiro? O quê, afinal, vindo de Bush, ainda surpreenderá alguém?

Obama tem de fechar Guantanamo. Tem de encontrar um modo de pedir desculpas ao mundo pelos crimes de seu predecessor, tarefa difícil para um homem que tem de mostrar-se orgulhoso de seu país; mas desculpar-se, pedir desculpas, é o mínimo que terá de fazer – no plano internacional –, se a "mudança" que Obama prometeu para efeito doméstico tiver de fazer algum sentido também além das fronteiras dos EUA. Obama terá de repensar – e desmontar – toda a "guerra ao terror". Terá de sair do Iraque. Terá de desativar todas as gigantescas bases aéreas implantadas no Iraque, e o prédio-fortaleza da embaixada norte-americana que lá existe, construção que já custou 600 milhões de dólares. Terá de pôr fim aos ataques aéreos de assassinato em massa que continuam, no sul do Afeganistão – por quê, ah, mas por quê continuamos a matar noivos e convidados em festas de casamento? – e Obama terá, também, de dizer umas verdades a Israel: que os EUA não podem continuar a aplaudir a brutalidade do exército de Israel, nem podem aceitar que judeus, e sempre judeus, continuem a invadir e ocupar terras dos árabes. Obama terá de enfrentar, pelo menos, o lobby israelense (de fato, um lobby do Partido Likud de Israel), e rejeitar o que Bush aceitou em 2004, isso é, a invasão e a ocupação ilegais de grande parte da Cisjordânia. Para isso, os norte-americanos têm de reunir-se com autoridades iranianas – e com autoridades do Hamás. E Obama terá de pôr fim nos ataques aéreos ao Paquistão – e à Síria.

Verdade é que aumenta a preocupação entre os aliados dos EUA no Oriente Médio: é indispensável que os militares norte-americanos sejam postos, outra vez, sob controle – e esse, afinal, foi o motivo pelo qual a visita do General David Petraeus ao Iraque foi dedicada menos a organizar algum "levante" ("surge"), do que a tentar reimpor a disciplina entre os 150 mil soldados e marines cuja missão – e cuja moral – foram arruinadas pelas políticas de Bush. Há provas, por exemplo, de que o ataque de quatro helicópteros à Síria, mês passado, que matou oito pessoas – se não foi operação de guerra suja, sujíssima – não foi, de modo algum, autorizada nem por Washington nem pelo comando norte-americano em Bagdá.

Mas Obama não conseguirá. Quer a retirada do Iraque, para concentrar mais poder de fogo no Afeganistão. Não derrotará o lobby em Washington e não impedirá que prossiga a construção de colônias nos territórios palestinenses ocupados, nem conversará com os inimigos de Israel. Com a indicação de Rahm Emanuel – "nosso homem da AIPAC na Casa Branca", como o jornal Maariv o descreveu essa semana – Obama já 'queimou' a largada. E, é claro, há a terrível possibilidade de que bin Laden, quando não estiver comprando selos em lojinhas de correio em bases militares dos EUA, esteja planejando outra atrocidade, para dar boas-vindas ao governo Obama.

Há ainda outro probleminha, contudo: os prisioneiros "desaparecidos". Não as vítimas que foram (e talvez ainda estejam sendo) torturados em Guantanamo, mas os milhares que simplesmente sumiram quando estavam sob custódia de autoridades dos EUA no estrangeiro ou – por trabalho dos norte-americanos –, presos em prisões dos aliados dos EUA. Há quem fale de 20 mil prisioneiros desaparecidos, quase todos árabes, todos muçulmanos. Onde estão? Podem ainda ser libertados? Ou foram todos mortos? Se Obama descobrir que herdou covas coletivas, de enterros em massa de cadáveres não identificados, terá de pedir mais desculpas ao mundo do que jamais imaginou.

Traduzido e enviado por Caia Fittipaldi

Fonte: The Independent

06 novembro 2008

Eleições nos EUA. As propostas de Michael Moore para Barack Obama*

Eleições nos EUA. As propostas de Michael Moore para Barack Obama*

Dez decretos presidenciais para os primeiros 10 dias na Casa Branca

Vitorioso Obama, Michael Moore (1) tem algumas propostas a fazer. A primeira é que no dia 20 de janeiro de 2009, ele proponha "uma exemplar procissão de detidos que saia da ala oeste da Casa Branca, uma fila de homens - e também uma mulher - algemados e encadeados entre si que abandonem o edifício conduzidos por agentes do FBI". "Os senhores Bush, Cheney, Rumsfeld, Rove, Wolfowitz, Abrams e outros - e a senhora Rice - não podem simplesmente ir embora. Falta demasiado dinheiro, foram destruídas demasiadas famílias e correu demasiado sangue pelas suas mãos". Não podem simplesmente ter um processo político. Devem ser submetidos eles e seus crimes à ação da Justiça.

Porém Michael Moore tem algo mais a propor: dez decretos que Obama deve definir nos seus dez primeiros dias de governo:

1. Retorno do alistamento militar obrigatório. Alega que as guerras do Iraque e do Afeganistão teriam terminado há tempos, caso tivesse sido restaurado o alistamento obrigatório. A novidade é que se chamaria apenas a filhos dos 5% mais ricos do país. "Permitiríamos invadir um país que não representa nenhuma ameaça para nós, se nessa ação tivessem que morrer os filhos dos ricos?" Como eles gostam de continuar vivos, porque sua vida é boa. "Neste momento nosso exército conta com 1.372.905 soldados". "Nos EUA há 1.305.675 jovens de famílias ricas em idade para alistar-se! Ou seja, que só com os filhos dos ricos já teríamos umas forças armadas com praticamente o mesmo numero de efetivos atuais. Quem poderia estar mais motivado para ir ao Iraque e defender a pátria, senão essa mesma juventude que mais vai se beneficiar de toda a operação?".

2. Quem tente lucrar com a assistência de saúde será detido pelas forças da ordem. "Ir ao médico quando alguém está doente deveria ser um dos direitos humanos. É a nossa vida que está em jogo, da mesma forma que se nossa casa tivesse sido incendiada ou se fossemos vitimas de um delito. Da mesma forma que a proteção oferecida a qualquer cidadão pelos bombeiros e pela policia é completamente grátis e universal, a assistência de saúde deveria ser proporcionada GRATUITAMENTE PARA TODO MUNDO". "...não será permitido que uma empresa obtenha lucros às custas da doença alheia".

3. Proibir o xarope de milho com alto conteúdo de frutose. Para comercializar um excedente de produção de milho, Richard Nixon deu subsídios à produção de xarope de milho com alto conteúdo de frutose, altamente prejudiciais à saúde. Graças a ele os fabricantes de refrigerantes e de comida rápida puderam aumentar o dobro o tamanho do que produzem, multiplicando várias vezes a obesidade dos norte-americanos. "É o nosso napalm interno".

4. Os norte-americanos não pagarão mais impostos que os franceses. "Teoricamente um casal de franceses com dois filhos paga, em média, 22% de seus rendimentos como imposto, enquanto que nos EUA um casal similar paga 19%, menos que os franceses". Mas há uma enorme diferença entre o que têm direito uma família francesa e uma norte-americana. A francesa tem direito a:

- assistência de saúde grátis;
- creche infantil gratuita ou praticamente gratuita;
- matrícula grátis no ensino universitário;
- licenças maternidade com duração mínima de 4 meses, com salário integral;
- férias obrigatórias de 30 dias, com salário integral;
- licenças por doença sem limite de tempo com salário integral para todos os cidadãos.
Nada disso têm os norte-americanos, que gastam muitas vezes mais para ter acesso ao que os franceses têm direito gratuitamente, pagando portanto muito menos impostos que os norte-americanos, pelo que recebem de retorno.

5. Proibir todas as publicidades nos cinemas. "Em 2007 as salas de cinema ganharam 217 milhões de dólares com publicidade, 15% a mais que no ano anterior". "Mas, por que reservar a publicidade para os minutos prévios à projeção de um filme? Que tal se colocamos um anuncio de Pepsi todos os dias antes de começar as sessões do Congresso? Não se poderiam exibir os spots de Viagra numa tela antes das sessões da Broadway? Ou passar, antes da missa e aproveitando que os fieis estão congregados, algum produto da marca Victoria’s Secret?"

6. Derrotar a Al Qaeda e a próxima geração de inimigos dos EUA na base de construir poços? Não haveria forma de evitar que algum maluco faça algum atentado. "Nestes momentos existem no mundo mais de um bilhão de pessoas sem acesso a água potável e dois bilhões vivem sem qualquer tipo de saneamento. Um terço da população do mundo! Estas duas tragédias são a primeira causa de doenças e de morte no Terceiro Mundo". "...garantiremos que todos os cidadãos do mundo tenham acesso à água potável e saneamento básico até 2020". Custará 10 dólares por pessoa nos EUA e se estará fazendo o bem para todos eles.

7. A partir de agora, quando alguém disque o número de informação telefônica, será atendido por uma pessoa do seu próprio lugar.

8. Conseguir que o sistema de proteção social estadunidense seja solvente até o século XXII fazendo com que os ricos paguem os que lhes corresponde. "...os ricos e os quase ricos NÃO PAGAM UM CENTAVO PARA A SEGURIDADE SOCIAL POR NADA DA RENDA QUE SUPERE OS 102.000 DOLARES". "Se todos os estadunidenses - também os ricos - tivessem que pagar ao nosso sistema de proteção social 6,2% dos seus rendimentos, HAVERIA DINHEIRO SUFICIENTE NA SEGURIDADE SOCIAL QUASE ATÉ O COMEÇO DO SÉCULO XXII!"

9. Atualizar o juramento de lealdade. Que o juramento de lealdade passe a ser: ‘JURO LEALDADE AO POVO DOS ESTADOS UNIDOS E À REPÚBLICA QUE REPRESENTAMOS, UMA NAÇÃO QUE É PARTE DO MUNDO E EM QUE REINAM A LIBERDADE E A JUSTIÇA PARA TODOS’.

10. HBO grátis para todos! "A HBO demonstra que nos EUA ainda sabemos fazer bem algumas coisas".

[Nota da edição: Michael Moore é um cineasta, documentarista e escritor estadunidense conhecido pela sua postura crítica em relação às grandes corporações, à violência armada, à invasão do Iraque e à hipocrisia dos políticos, sendo particularmente crítico em relação a George W. Bush. Entre os seus filmes mais famosos estão Fahrenheit 9/11 (2004), onde critica George Bush; Bowling for Columbine (br: Tiros em Columbine) (2002), onde aborda a obsessão em redor das armas nos Estados Unidos da América, relacionando-a com o Massacre de Columbine, ocorrido numa escola (Wikipédia)]


* Texto de Emir Sader, a partir do livro "O guia de Michael para presidente", no original. Mike for president!, na edição de Temas de Hoy, Buenos Aires, 2008.

Fonte: Adital