13 dezembro 2006

Comentário Sobre matéria da FSP


Prezado Marcelo Beraba e demais jornalistas,

Na Folha de S. Paulo, edição de domingo, dia 10 de dezembro, lê-se o título A ética do PT, uma retranca da matéria assinada pelo repórter Fábio Zanini (PT evita apurar e punir seus desvios éticos). Logo abaixo, surge a nota Sanguessugas, na qual se lê que "O PT pediu informações informalmente aos envolvidos, entre eles a senadora Serys Slhessarenko (PT-MT), e se deu por satisfeita (sic)". Nunca fui filiado ao PT, tampouco a outro partido político, mas fui assessor da então deputada estadual Serys Slhessarenko entre 2000 e 2002. Hoje, resido em Porto Alegre (RS), de modo que nunca tive vínculo com seu mandato de senadora. Não perderia meu tempo em defender gente sabidamente desonesta.

Escrevi outras vezes, no auge de seu linchamento público, acusando que confiava na inocência da parlamantar até que prova surgisse em contrário. Ou seja, eu apenas reproduzi a lei, mas, em verdade, sentia que essa declaração só cabia na boca de assessores otimistas, ou de defensores cegos. Bem, o fato é que a prova não apareceu até hoje. Também apontei que, quando ela provasse sua inocência, invertendo o ônus que todos conhecemos, a notícia repercutiria com cheiro de pizza.

Já apontei, portanto, erros na cobertura (que não foram corrigidos, isto é, não foram publicados) e outros excessos (segundo gentil resposta que recebi do ombudsman, eram críticas pertinentes, que seriam levadas a escalões superiores do jornal). Vamos a algumas novas considerações:

1) Preliminarmente, gostaria de registrar curiosa seletividade da Folha de S. Paulo. Vejamos o caso das sanguessugas. Existem 72 parlamentares citados no relatório parcial da CPMI das Ambulâncias. Desse total, apenas dois (2,77%) são do PT. Há 84 parlamentares investigados pelo Supremo Tribunal Federal e apenas um (1,19%) é do PT. A senadora Serys Slhessarenko foi absolvida do juízo político e nunca esteve indiciada pelo STF. O jornal não noticia "A ética do PMDB", "A ética do PFL", "A ética do PP" ou "A ética do PL", mas todas essas siglas tiveram mais parlamentares envolvidos no mesmo escândalo, sem expulsões. E é justamente uma parlamentar que foi absolvida do juízo político, e jamais foi investigada pelo STF, a entrar na conta da tal "Ética do PT". Decerto, porque o partido evita apurar e punir o desvio ético da senadora.

2) Não faço a mais pálida idéia do que vem ser a ética do PT, tampouco como funciona seu tribunal ético. Sei, contudo, que existem outras informações públicas sobre a senadora. Entre elas, está sua absolvição no Conselho de Ética do Senado, sendo que o relator do processo é da oposição, Paulo Otávio (PFL). O STF não a investiga e isso também é público. Na Folha de S. Paulo, pelo que li até hoje, o não-indiciamento da senadora é uma "divergência" e "as investigações ainda não foram concluídas". Ou seja, ela não está indiciada: é uma divergência. Mas ela pode vir a ser indiciada a qualquer momento, porque as investigações prosseguem. Sublinho que o procurador da República Mário Lúcio Avelar, o juiz federal Jefferson Schneider, o procurador-geral Antônio Fernando de Souza e o ministro do STF Gilmar Mendes leram os depoimentos da famiglia Vedoin, publicados e repisados pela Folha de S. Paulo e outros veículos de comunicação. Os operadores do Direito decidiram não investigá-la. Para o tribunal ético da Folha, isso não basta. É preciso, pois, mencionar "A ética do PT" no caso da senadora.

3) O "I" de uma CPI (ou CPMI) refere-se a inquérito. Como pode um inquérito prescindir de diligência para apurar as alegações da defesa? Pois foi isso que aconteceu na CPMI das Ambulâncias. É ético um tribunal de exceção? A senadora apresentou defesa prévia, mas o relator da comissão, Amir Lando (PMDB), afirma ter elaborado seu relatório parcial sem ler a defesa que foi pedida (e entregue dentro do prazo estabelecido pela comissão). Ao atirar todos na vala comum, sem direito de defesa, o juízo político contribuiu enormemente para que eventuais culpados, com provas documentais a complicá-los, tenham o mesmo tratamento de eventuais inocentes junto à opinião pública. Esta Folha, pelo que se depreende de sua cobertura, endossa esse proceder. O jornal, na minha avaliação, não publicou a contento a defesa apresentada pela parlamentar - ainda mais se compararmos ao destaque e recorrência com que as acusações apareceram em suas páginas. Podemos chamar isso de "A Ética da Folha de S. Paulo"?

4) Quem reduziu a uma "divergência" a ausência da senadora entre os indiciados do STF foi o petista Antônio Carlos Biscaia. Decerto, ele integra a parte ética do PT. Ele é um promotor de Justiça licenciado. A reportagem da Folha, que decerto é igualmente ética, aspou essa declaração. A Folha já questionou, com rigor, o absurdo que é realizar um inquérito sem ouvir a defesa? Cadê o absurdo dessa "divergência" reconhecida por Biscaia e publicada pela Folha? Ora, ele também disse que, da parte dele, estava "convencido do envolvimento dos três senadores". Onde foi parar o convencimento do Biscaia? Onde está esta matéria? Engraçado como uma colunista desta Folha, aquela cuja ética autoriza roubar documentos porque informações não caem do céu, ficou antenada com o tratamento "mata, esfola" dos pilotos do Legacy. Políticos brasileiros, especialmente os do PT, podem ser acusados de crime. Se forem inocentes, a Folha questionará "A Ética do PT". Políticos são pessas públicas e a imprensa é livre para publicar acusação de crime sanguessuga contra eles, sem se importar em ser justa, ou correta. Assim, a Folha constrói uma realidade mais justa e ética para os seus leitores.

5) Vedoin, um bandido cujas afirmações eram verdade bíblica até o episódio do dossiê, acusa ter pago 35 mil reais em espécie ao genro da senadora, para, supostamente, quitar uma dívida de campanha de Serys. O bandido não tem prova, embora tudo da Planam seja muito bem documentado. Existem planilhas comprometedoras apreendidas pela Polícia Federal (FSP, 17 de maio), onde se lê que havia emenda "monitorada" e sua liberação era acompanhada "passo-a-passo". Luiz Antônio Vedoin, que tem no ex-petista Valdebran Padilha (esse foi expulso, mas isso não faz parte da "Ética do PT") um homem de confiança, no depoimento de delação premiada, entrega documentos. Quando começa a citar parlametares, a primeira da longa lista é a senadora Serys Slhessarenko. Nada menos que 57 parlamantares, vários de MT, são imediatamente indiciados. Serys, a primeira citada por Vedoin, não foi indiciada. O genro nega ter recebido a propina, mas confirma ter feito negócio com a Planam. O genro entrega um cheque recebido da subsidiária da Planam, que a famiglia Vedoin não sabia qual era, como ficou claro na acareação. Serys entrega os sigilos bancário, telefônico e fiscal. Nada é encontrado contra a senadora.

6) No dia 18 de setembro, três dias após a prisão dos aloprados no hotel Íbis, a Folha ouve Serys. Título? Senadora nega envolvimento com detidos. Ou seja, no título, ela faz o que todos fazem: nega. Lá no final da matéria, lê-se que ela alega que o petista Valdebran deve ter raiva dela. O jornal informa, num pé de matéria, e sem repercussão, que ela alega ter impedido, por duas vezes, a indicação do aloprado para um cargo na Eletronorte. O que o jornal investigou dessa alegação? Engraçado, que a Folha já repercutiu as ligações telefônicas entre o deputado petista Carlos Abicalil, o candidato a prefeito Alexandre Cesar, também do PT de Mato Grosso, e os aloprados. O jornal é rápido em reverberar acusações e não gosta de publicar quando acusações tratadas como verdade bíblica se revelaram falsas. O jornal parece não saber que existe prova documental da chantagem feita por Valdebran a um assessor da senadora, muito antes da Operação Sanguessuga. O jornal não faz questão de publicar o que pode inocentar uma parlamentar honesta. Pior: cita a senadora num quadrinho da suposta "ética do PT". Francamente, é de enojar. Não tenho outra palavra. Se tiver estômago, leia o próximo tópico.

7) Serys é parlamantar há 20 anos. Nunca recebeu jeton, já devolveu aos cofres públicos cerca de 350 mil reais em valores corrigidos. Somente em janeiro de 2006, foram 30 mil reais devolvidos - e não doados para uma compra dissimuilada de votos, como fazem alguns parlamentares éticos. Seu patrimônio, avaliado em cerca de 200 mil reais, inclui apenas uma casa e um carro. Ela não recebe aposentadoria especial de parlamentar, embora tenha direito a esse provento, que ela sempre considerou imoral, tal como o jeton. Muito antes do assunto ser moda, ela apresentou projeto de lei que proibia a contratação de parentes. Portanto, em seu gabinete, JAMAIS houve um único parente contratado. Isso era público em Mato Grosso - mas nunca foi publicado pela Folha de S. Paulo, porque história de vida não conta se a pauta é "A ética do PT". Nem pai, nem filho, nem genro, nem cunhada, não havia parentes no gabinete da deputada Serys. Nunca houve. Trabalhei por dois anos lá e testemunho que não conhecia o tal do gerno que a senadora teria colocado para captar propina junto a um tal de Vedoin. Eu sequer sabia que o nome do genro era Paulo Roberto! Vedoin? Nunca ouvi falar. Jamais atendi a uma ligação telefônica desse genro que, supostamente, cobrava propina em nome da senadora. O telefone do gabinete na AL/MT era 65-613-2542; meu celular em Cuiabá era 65-9998-4294; o da minha residência era 65-626-3477. EU ME LEMBRARIA desse genro e de coisas estranhas dentro do gabinete.

Atenciosamente,

Fábio Carvalho
No Blog do Mino Carta


Esse postado, do Blog do Mino Carta, é perfeito retrato do quadro no qual se inscreve, hoje, a 'coluna' da D. Eliane Cantanhede (a dos "Ih!" e "Ufa!" do comandante da Marinha, hoje). Eu só o li hoje. Se já apareceu por aqui, desculpem o repeteco. Aí vai, caso não tenham visto, pq é muito claro:

07/12/2006 17:26

Um civil na Defesa

Segundo os jornalões, Waldir Pires no ministério da Defesa tem os dias contados. Vai espatifar-se no chão duro da política, conforme a previsão de uma charge de Chico Caruso publicada em O Globo ontem, dia 6. Confesso que a charge não faz bem ao meu espírito, mas isso é o de menos. Conta mais outra questão, crucial, se me permitem.

Ou seja, em meio à tempestade provocada pelo caos nos aeroportos, vem à tona, com prepotência, a insatisfação militar pela presença de um civil no ministério da Defesa. Quer dizer, o quartel de Abrantes continua o mesmo. Civil na Defesa é absolutamente normal em democracias mais ou menos autênticas. Temos aí a enésima prova de que o Brasil está longe disso, haja vista o comportamento dos jornalões, todos empenhados em acompanhar sofregamente o rumo do furacão, na linha de Tasso Jereissati e ACM, que uivam da tribuna. É, sempre e sempre, o golpismo à espreita.
enviada por mino


Cresça e apareça, D. Eliane (Sobre EC, FSP, 12/11/2006)


Sobre: ELIANE CANTANHÊDE, “Nervos à flor da pele”, Folha de S.Paulo, 12/11/2006, na edição impressa e aqui



"Cultura é equilíbrio intelectual, reflexão crítica, senso de discernimento, aborrecimento frente a qualquer simplificação, a qualquer maniqueísmo, a qualquer parcialidade".

Norberto Bobbio, em carta a G.Einaudi, julho de 1968[1]

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D. Eliane,

vamos logo ao ponto, em jogo rápido: alguma coisa vai muito mal, com certeza, quando aparece ‘noticiado’ em jornal que eu pago pra ler (pior: quando aparece ‘colunado’ em pág. 2, em coluna assinada!), que algum comandante da Marinha declarou à imprensa que primeiro “Ih!”, depois “Ufa!”.

Mais um pouco, e aí estará a senhora, tentando fazer-se de jornalista, a zurrar que um general-brucutu qualquer desses, de pijama, é liiiiiiiiiiiiiiiiindo, feito qualquer D.Hebe; ou provando o que todo mundo já sacô: que o jornalismo brasileiro já está reduzido, mesmo, a alguma espécie de profissão reservada a senhoras de Santana já suuuuuuuuuuuuuuuuuper fanadas, cujas opiniões-palpitaria são perfeitamente alugáveis, feito qualquer D. Danuza; ou a subjornalistas de qquer sexo, alugados e pagos (baratinho) para implantar a DES-opinião, sempre DES-democratizada, na cabeça dos mais tolos que ainda leiam a Folha de S.Paulo.

O ridículo dessas nossas elites de cabeça (golpista) fanada sempre aparece: é só dar-lhes corda (ou coluna de jornal, ou cátedra tucano-pefelista-uspeana).

Hoje, aí está a senhora, inventando “Ih!” e “Ufa!” em lábios de comandante da Marinha, em pleno século 21, no espaço mais nobre de qquer jornal respeitável do planeta e que, na Folha de S.Paulo, é espaço já completamente degradado.

A universidade paulista piorou muito, sabe-se, no período em que os FHCs, Faustos, Gianottis et caterva passaram, de alunos, a professores e presidentes da República & respectiva gang, primeiro eleitos, depois varridos da vida política brasileira e, então, reentronados como ‘sumidades’, só nos jornalões paulistas.

É bem possível, portanto, que também algum comandante da Marinha tenha piorado e, hoje, viva de 'declarar' “Ih!” e “Ufa!” a jornalistas ridículos; não sei avaliar e, sim, é claro que é possível, também, que o comandante da Marinha tenha melhorado e, nesse caso, só nos falta, mesmo, é jornalismo que o mostre. Só o tempo dirá.

Mas é garantido, garantidíssimo, que o que mais piorou no Brasil, nas últimas décadas, foi, mesmo, o jornalismo, os jornalistas, os jornais e, sobretudo, a Folha de S.Paulo.

Não estou dizendo que o comandante da Marinha não diga “Ih!” e “Ufa!”, vez ou outra. Ele deve dizer, é claro. O que estou dizendo é que a senhora deve ter perdido TOTALMENTE qualquer noção do que seja coluna jornalística e jornalismo decentes, jornalísticos, democráticos ou, pelo menos, menos ridículos do que TOTALMENTE ridículos.

Se lhe restasse ainda alguma idéia do que seja (ou deva ser) o jornalismo, um (uma) jornalista e um jornal no mínimo decentes, a senhora não escreveria “Ih!” e “Ufa!”... como se fossem declarações do comandante da Marinha do Brasil (essa, hoje, me desculpe, só rindo!).

Desnecessário dizer que o Brasil está calmíssimo, trabalhando normalmente.

Desnecessário dizer que o presidente Lula está também TOTALMENTE calmíssimo e no comando.

Desnecessário dizer que os problemas dos aeroportos estão sendo tratados pelo que eles SÃO (saiba a senhora disso, ou não, é claro).

Desnecessário dizer que o problema dos aeroportos não serão, de modo algum, tratados e/ou encaminhados pelo que a senhora deseja fazer-crer que eles sejam. Os jornalões paulistas já não enganam o Brasil. Esse tempo acabô. Viva o Brasil! Lula é muitos!

O presidente Lula sempre sabe o que diz. Se, ontem, ele achou adequado mandar um recado que esvaziasse os chiliques golpistas mais estridentes (tipo “Ih!” e “Ufa!” de comandante da Marinha, inventados e divulgados em coluna de jornalismo golpista, assinada por jornalista golpista, em jornal golpista)... Bom, D. Eliane, acorde.

Para bom entendedor, pingo é letra. Todo o Brasil viu, no programa Roda Viva, o quanto a senhora esfalfou-se, aliada àquele jornalista doido norte-americano, que falava como perfeito Unabomber, para derrubar o ministro Waldir Pires. O ministro Waldir Pires tirô de letra o doido, tirô de letra a senhora e tirô de letra o resto.

NUNCA subestime as competências democráticas de um democrata sobrevivente, em democracia sobreviente e esperta, sob presidente democrata sobrevivente e espertíssimo. Cresça e apareça, D. Eliane.

Viva o Brasil! Lula é muitos!

NOTA

[1] http://educaterra.terra.com.br/voltaire/cultura/2004/01/14/001.htm

Caia Fittipaldi

12 dezembro 2006

Os silêncios da imprensa


Por Dalmo Dallari

A imprensa deve ter o direito de ser livre, a fim de que possa manter o povo informado de todos os fatos de alguma relevância para as pessoas e a humanidade, que ocorrerem em qualquer parte do mundo. Essa liberdade inclui o direito de expressar-se livremente, mesmo que se trate de informação que contrarie as convicções e os interesses dos governantes, havendo geral reconhecimento de que a imprensa livre é um instrumento necessário para a existência do Estado Democrático.

Além disso, no mundo contemporâneo, são muitas as atividades, de maior ou menor importância para a sociedade, que dependem de informações corretas, atualizadas e, quanto possível, precisas, cabendo à imprensa atender também a essa necessidade social. Bastam esses pontos para se concluir que as tarefas da imprensa configuram um serviço público relevante. E por isso a Constituição proclama e garante a liberdade de imprensa como direito fundamental.

Como é evidente, esse direito e essa garantia não são outorgados como um favor ou privilégio aos proprietários dos veículos de comunicação de massa, mas têm sua justificativa precisamente no caráter de serviço público relevante, da imprensa. Mas dos mesmos fundamentos que justificam o direito e a garantia de liberdade decorre o dever de informar honestamente, com imparcialidade, sem distorções e também sem omissões maliciosas, sem a ocultação deliberada de informações que possam influir sobre a formação da opinião pública. Assim, a liberdade de imprensa enquadra-se na categoria de direito/dever, semelhante a outros de relevante interesse social, como o sufrágio.

Três omissões recentes da grande imprensa brasileira, configurando a ocultação deliberada de fatos e de informações relevantes, deixam evidente que muitos órgãos da imprensa, justamente ciosos de sua liberdade a ponto de reagir à mais leve suspeita de ameaça, andam faltando ao seu dever de informar. Uma dessas faltas foi a ocultação de um pronunciamento de defensores de Direitos Humanos, solidarizando-se com policiais vítimas de criminosos durante as agitações promovidas pelo crime organizado em São Paulo, no mês de maio deste ano. O texto do manifesto, não tendo mais do que 20 linhas, foi enviado às redações dos grandes jornais de São Paulo, os mesmos que costumam acusar os defensores de Direitos Humanos de defenderem os criminosos e de não darem solidariedade às vítimas. Nenhuma referência a esse pronunciamento foi publicada, enquanto era dada publicidade a outras manifestações de solidariedade.

Outro desrespeito ao dever de informar foi a negativa de publicar um manifesto de intelectuais, solidarizando-se com o professor Emir Sader, que sofreu uma absurda condenação por ter criticado, num artigo de jornal, uma raivosa, antidemocrática e grosseira referência do senador Jorge Bornhausen, de Santa Catarina, aos petistas, dizendo ser preciso "acabar com essa raça", bem ao estilo dos nazistas quando se referiam aos judeus. Um juiz, doutor Muller, solidarizou-se com o senador Bornhausen, e invocou a honra ofendida dos catarinenses como um dos fundamentos da condenação, mais política do que jurídica. E a mesma imprensa que tem condenado o que denomina "o silêncio dos intelectuais", por estes não darem apoio às acusações e insinuações levianas contra membros do governo e dirigentes do PT, praticou "o silêncio da imprensa", dando ampla repercussão à decisão condenatória e não publicando qualquer informação sobre o manifesto dos intelectuais.

A terceira falta ao cumprimento do dever de informar é o "silêncio ensurdecedor" da imprensa sobre o conteúdo de um famigerado dossiê, que teria sido comprado por petistas pagando somas altíssimas. Alguns quilômetros de espaço nos jornais e muitas horas na televisão e no rádio foram dedicados ao dossiê e, no entanto, a mesma imprensa que penetrou na intimidade de acusados, que divulgou informações sobre conversas telefônicas e encontros sigilosos de envolvidos no caso, que penetrou em meandros de
operações financeiras, nada informou, absolutamente nada, sobre o conteúdo do dossiê. Acrescente-se ainda que a imprensa, num prodígio de eficiência, conseguiu fotografar uma pilha de dólares, supostamente ligada ao caso, guardada num local altamente protegido, sob a vigilância de um solerte delegado da Polícia Federal. E até agora nenhuma palavra sobre o conteúdo do dossiê, não se sabendo se este realmente existe ou se a imprensa, por alguma razão, não quer revelar o seu conteúdo.

Os casos aqui referidos, e outros que poderiam ser acrescentados, deixam patente que a liberdade de imprensa, absolutamente necessária no Estado Democrático, não está sofrendo qualquer cerceamento no Brasil. É indispensável que a imprensa use corretamente essa liberdade e cumpra seu dever de informar, sem incorrer na grave falta da ocultação intencional de informações, que pode ser tão grave ou danosa quanto a divulgação de informações falsas.

Dalmo Dallari é jurista e professor da Universidade de São Paulo.

Fonte: Jornal do Brasil

11 dezembro 2006

Salve-se quem puder


FHC vai coordenar reformulação do PSDB
Quarta, 29 de novembro de 2006 , 12h27

Foi a primeira vez que a alta cúpula da legenda se reuniu depois das eleições. Entre os assuntos esperados, estava a postura que o partido pretende adotar no segundo mandato do petista Luiz Inácio Lula da Silva. Havia a possibilidade de o presidente convidar integrantes do PSDB para uma conversa, mas o assunto sequer foi tratado, segundo o vice-presidente do partido e vice-governador eleito de São Paulo, Alberto Goldman.

Ele confirmou que a reformulação do programa do PSDB, prevista para "meados do ano que vem", será encabeçada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

- Sim, sim. Ele deve ser o coordenador.

Fonte: Terra Magazine


PSDB é brasileiro ele não desiste nunca.

Esta é a conclusão a que me leva a confirmação do vice-governador eleito por São Paulo, de que FHC encabeçará a reformulação do PSDB.

Esta talvez seja uma das principais novidades depois de saber que Alckmim, voltará em 2007, como professor de “Eleição e gestão pública”.

São conclusões lógicas, se Alckmim pode ser professor de um curso de algo que ele menos entende como já deu provas, o ex-ex-presidente pode dar certo como coordenador de reestruturação de um partido que ele desestruturou.

É chegada a hora de colocar em prática todas as teorias sociológicas-uspeana com base na elite paulista.

Uma das tarefas certamente mais difícil do ex-ex-presidente será fazer com que o PSDB assuma como uma das principais bandeiras, as privatizações como fator de desenvolvimento nacional, diante dos últimos exemplos que tivemos e mais, que as denúncias de irregularidades sejam esquecidas.

A esperança do PSDB é que estes doze anos de PSDB em São Paulo mais oito anos de PSDB na presidência e estas últimas eleições, tenham dado ao príncipe da sociologia conhecimento suficientes para entender a nossa sociedade, e que a veja como um estado e não a separe mais em atrasados e modernos e não se mede o eleitor por nível cultural ou econômico.

Coincidentemente, ao escrever este texto, vejo a notícia da morte de Pinochet e a opinião de FHC como não poderia deixar de ser na Rede Globo, onde ele diz que o ditador chileno foi julgado pela história. Que ele tome para si esta opinião, e se recorde de seus oito anos de presidência e conseqüentemente seu julgamento popular.

Ao PSDB, fica a lição de que, guardando-se as devidas proporções, seria a mesma coisa que a UDI chilena colocasse Pinochet para reestruturá-la.

Ao ex-ex-presidente é bom que se lembre o julgamento do povo, com certeza, é menos condescendente que as vias legais.


Paulo Nolasco de Andrade
Economia: Inflação de 2006 será a menor em 8 anos, calcula IBGE


A inflação oficial de 2006 será a menor dos últimos oito anos, adiantou nesta sexta-feira (8) a coordenadora de índices de preços do IBGE, Eulina Nunes dos Santos, após divulgar o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) de novembro – que manteve a trajetória de queda e fechou em 0,31%.

No ano, o IPCA acumulado é de 2,65%. Nos últimos 12 meses, de 3,02%. O índice está bem abaixo da meta central fixada pelo CMN (Conselho Monetário Nacional) para a inflação em 2006, de 4,5%, e deverá fechar o ano com a menor taxa desde 1998, quando a inflação foi de 1,65%.

Eulina observou que, com os dados apurados até novembro, é possível adiantar que o resultado foi bastante influenciado pelo dólar. "A economia brasileira é permeada pelo dólar em seus custos e o câmbio neste ano facilitou a importação de produtos, com impacto na inflação".

Outro fator importante, segundo Eulina, foi o crescimento da safra agrícola em 3% ante a safra do ano passado, que fez com que os alimentos contribuíssem para manter o IPCA reduzido na maior parte do ano.

O grupo de produtos alimentícios, com alta de 1,05% em novembro, contribuiu com 0,21 ponto porcentual para o IPCA do mês, ou cerca de 70%. Eulina disse que os alimentos intensificaram a pressão na inflação em novembro por causa da entressafra de alguns produtos. No entanto, destacou que vários itens alimentícios já começaram a desacelerar, tendência que deverá prosseguir em dezembro.

05 dezembro 2006

AO ARQUEÓLOGO DO FUTURO


Os fantasmas ainda rondam


Um relato sumário do golpe militar de 64 e seus espectrais reflexos na orquestração da mídia brasileira, 42 anos depois, na tentativa de apear do poder um presidente eleito democraticamente.

Wilma Antunes Maciel

Caro arqueólogo do futuro,

Fico feliz que tenha encontrado essa carta e espero que a mensagem contida nela não se perca. Envio-a do século XXI, do início do verão de 2007, como sou historiadora vou recuar um pouco no tempo, para melhor te explicar o meu tempo presente. Vou deixar indícios e vestígios dos anos 60/70 do século XX e dos dias que ora vivemos.

No ano de 1964, o Brasil sofreu um golpe civil-militar, é isso mesmo querido arqueólogo, os militares não estavam sozinhos, parcelas significativas da sociedade brasileira apoiaram e clamaram pelo golpe que derrubou o presidente João Goulart eleito pelo voto direto. Os motivos, dentre tantos alegados: a corrupção e a subversão. Os donos do poder iriam, afastada a subversão, moralizar o país e promover o desenvolvimento com segurança, o Brasil não seria mais o país do futuro, como até então se afirmava, agora caro arqueólogo do futuro, o futuro havia chegado.

Mas, como você pode avaliar pelas cartas que tem encontrado, alguma coisa não deu certo. Deposto o presidente, iniciou-se a caçada aos inimigos do regime. Os primeiros a serem perseguidos foram os sindicalistas, pessoas ligadas ao antigo governo e principalmente militares que não aderiram aos golpistas. Uma nova legislação de segurança nacional criaria a figura do inimigo interno.

Nos anos seguintes, uma sombra de obscurantismo foi descendo sobre o país que, naqueles anos, estava incrivelmente iluminado por uma efervescência cultural visível em todos os campos: cinema, música, literatura, teatro, artes plásticas. Novos projetos educacionais, trabalhadores, estudantes ansiavam por participação, e então, caro arqueólogo, a ditadura teve que enfrentar toda essa gente que pensava, refletia e tinha projetos que não eram pautados somente no individualismo, mas num projeto coletivo que mudasse o país, quiçá o mundo.

A luta foi dura. Nos idos de 1966, os estudantes tomaram as ruas e saíram à frente das reivindicações sociais, travaram verdadeiras batalhais campais com a repressão da polícia. Nos anos seguintes, grupos de esquerda organizaram-se e armaram-se para enfrentar a ditadura, militares deixaram os quartéis; estudantes, as escolas e universidades; professores, as salas de aulas; jornalistas, as redações; camponeses, os campos; operários, as fábricas, enfim, muitos deixam seus trabalhos, carreiras, famílias, amigos e buscaram libertar o Brasil da ditadura que continuava perpetuando a desigualdade, a injustiça social, tirando toda e qualquer liberdade, implantando o medo e a perseguição aos opositores do regime.

Os órgãos de repressão da polícia agiam implacavelmente: prisões, torturas, assassinatos, desaparecimentos de pessoas; os que sobrevivem aos porões eram apresentados aos tribunais militares como denunciados e, como tais, muitos apresentaram denúncias das arbitrariedades, abusos, depoimentos forjados sob torturas, violações dos direitos humanos, contudo sofreram a repressão da injustiça militar, defrontaram-se com seus torturadores como testemunhas de acusação, foram tratados como inimigos da pátria e, mesmo diante de todo clima de intimidação, exigiram que os crimes praticados contra eles fossem registrados.

Sobre este período, o importante, caro arqueólogo, é que não seja esquecido que um grupo de homens e mulheres enfrentaram a ditadura, não só porque se fazia necessário lutar contra a brutalidade, mas porque acreditaram e deram o melhor de si na busca por um outro mundo, melhor e mais justo.

Até o final da década de 1970, a maior parte desses militantes seriam presos, banidos do país ou mortos, sendo que, até hoje, muitos desses mortos continuam sem sepultura, apesar da busca incessante das famílias pelos desaparecidos políticos. Em 1979, foi declarada anistia não só para os que cometeram crimes políticos, mas também para os torturadores, que nada mais eram do que funcionários públicos que cometeram crimes no exercício da função, e é nessa função que alguns permanecem até hoje, sem que sejam julgados ou responsabilizados por seus atos.

Assim, fizemos a "transição para a democracia", mas o espectro da ditadura continuou rondando-nos, fosse nas práticas autoritárias ou na figura daqueles que a serviram e permaneceram na cena política.

A nova máscara do fantasma
Hoje, lamenta-se e condena-se tantas atrocidades, mas é bom lembrar a responsabilidade de toda a sociedade que apoiou o golpe e a deposição do presidente João Goulart. Passados 42 anos, tivemos a volta do fantasma do golpismo, não de militares, mas dos mesmos donos do poder dos idos de 1964, orquestrados pelos donos da mídia, que no nosso país são controladas por apenas algumas famílias. Tentaram, novamente, apear do poder um presidente eleito democraticamente. Não conseguindo tal intento, trataram impedir de todas as formas a sua reeleição.

Refiro-me ao presidente Lula, um líder operário que iniciou sua trajetória política no final da ditadura militar organizando o sindicato dos metalúrgicos do ABC paulista e que, depois, viria a fundar o Partido dos Trabalhadores (PT), juntamente com muitos dos ex-militantes que deixaram as prisões ou retornaram do exílio. Eleito em 2002, no final do seu mandato as velhas elites acharam que era hora de dar um basta ao seu governo e, de uma forma que os eliminasse pelo menos por uns trinta anos, segundo um dos seus porta-vozes.

Por ocasião do golpe de 1964, a imprensa teve um papel importante na desestabilização do governo de Goulart, basta ver alguns editoriais às vésperas do golpe de jornais como Correio da Manhã que pediam a deposição do presidente.

Durante esses anos de "redemocratização", tentar interferir nos resultados das eleições tem sido uma prática recorrente. Emissoras de televisão, como a Rede Globo, distorcem, editam, difamam, falseiam dados. E, como muitas vezes isto deu certo, nos últimos meses, voltaram à carga e, de uma forma nunca antes vista, uniram-se e cobriram-se de golpismo e mentiras. Não ficou pedra sobre pedra. Na televisão, além dos telejornais, os programas humorísticos, de entrevistas, de receitas culinárias e as novelas bateram duro na figura do presidente e do seu partido. Na imprensa escrita, os jornais e as revistas semanais não fizeram por menos, a idéia era sangrar o governo até a morte, já que não haviam conseguido apoio popular para um pedido de impeachment do presidente.

Só que, desta vez, algo inusitado aconteceu, os supostos "formadores de opinião" não encontraram eco para suas vozes junto à população do país, e o seu candidato por mais que tivesse sido poupado de críticas e apresentado com uma bela embalagem, enfrentou uma fragorosa derrota.

De um lado, o povo que aprova as políticas sociais de um governo que pela primeira vez ousou cumprir promessas de campanha e colocou em prática programas que visam diminuir o fosso de desigualdade tão característico das sociedades capitalistas. De outro lado, o surgimento de meios de comunicação alternativos aliados a jornalistas que não compactuaram com o descaramento dos grandes monopólios da imprensa, a internet também foi uma das trincheiras, por meio dos blogs que divulgavam outros pontos de vista e mostravam a incongruência das notícias mentirosas e caluniosas, grupos de discussão se formaram e as mensagens disseminavam-se rapidamente. As tentativas de golpe foram denunciadas, os lacaios dos grandes jornais, revistas e emissoras de televisão sentiram a força dos leitores e espectadores que cobraram um posicionamento ético, cancelaram suas assinaturas e buscaram outras fontes de informações.

Espero, caro arqueólogo, estarmos iniciando um novo tempo, com uma luta pela democratização dos meios de comunicação e para que estes estejam sujeitos às mesmas regras da Justiça impostas a toda sociedade. E que no seu tempo isso seja uma realidade, que as mídias tenham sua opinião, que até apóiem candidaturas, pois sabemos que a neutralidade não existe, mas que se pautem na ética, e que jornalistas, apresentadores, artistas façam o mesmo. A liberdade de expressão de cada um não pode subestimar a nossa inteligência e tentar nos manipular de forma grotesca e mentirosa.

No momento, apesar da derrota, grande parte dos meios de comunicação não se emendam e continuam na sua jornada inglória, perdendo cada vez mais a credibilidade.

Bem, caro arqueólogo, estas são algumas pistas para que você descubra um pouco mais a história da nossa sociedade, deixo também um aviso, se algum colega seu historiador for estudar esse período por meio da imprensa, será imperioso que ele busque compreender o porquê de tantas mentiras, e faça uma dura crítica das fontes. Espero que, nas suas escavações, você encontre mais vestígios sobre as lutas do nosso povo. Procure por esses Brasis e compreenderá a lição que acabamos de receber neste momento da nossa história.

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Wilma Antunes Maciel é professora e historiadora. Estuda a ditadura militar no Brasil e realiza a pesquisa de doutorado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - USP sobre a participação dos militares de esquerda na luta armada. É autora do livro: O capitão Lamarca e a VPR: Repressão judicial no Brasil.