15 outubro 2006

Brincando com o “Sete-peles”


Eleição às vezes parece um portal onde anjos e demônios, que antes andavam invisíveis em meio ao povo, de repente começam a pregar e a arrebanhar pessoas para conduzi-las, sabe-se lá a que mundo.
Nessa reta final da eleição, o mármore esquentou. O tal dossiê dos Vedoin descortinou uma cena em que “encardidos” foram flagrados de rabo e chifre. O dossiê cheira a isca de carne de tucano. Um pássaro, segundo o presidente Lula, que ataca o ninho de outras aves para comer os ovos.
Não se sabe ainda se “encardidos” ou anjos. Como se trata de seres elementais, com poderes sobrenaturais, as aparências podem estar invertidas.
É prudente aguardar a conclusão das investigações, para que no juízo final cada um seja justamente encaminhado para o céu ou para o inferno.
O fato é que cabeças rolaram com uma só ceifada da foice mortal de Lula.
Essa tem sido a diferença deste governo. Ninguém envolvido em escândalo foi poupado. Todos foram afastados enquanto procedem as investigações.
Mas o que causa perplexidade é a capacidade de certos “companheiros” do PT gerar crises. A oposição age ao sabor dos fatos que lhes são servidos de bandeja. Também, com esses assessores Chapolim Colorado... Sabe aquele comediante mexicano que se veste com um uniforme vermelho e um short amarelo, usa ainda duas anteninhas de vinil, capazes de detectar a presença do inimigo, capta qualquer freqüência de rádio do Universo e que diz sempre ao final das cenas : “ você não contava com minha astúcia!”, “Meus passos são milimetricamente calculados”, “Suspeitei desde o princípio” ? Pois é, esse tipo de assessor é o próprio personagem Chapolim, esculpido em carrara.
Acha que está realizando um grande feito e na verdade não tem preparo para lidar com tarefas grandiosas como essas do núcleo pensante de uma campanha tão importante para o país e ao mesmo tempo em situação tão delicada. Não sabe lidar com a imprensa feroz, não se dá conta de que pode ser presa fácil de um bando de hienas famintas. Tanto assim que com sua “ astúcia”, segundo a imprensa, acorreu a um chamado dos Vedoim, que diziam ter um dossiê, “ouro puro”. Os “assessores” “calcularam milimetricamente” cada passo.
Afoitos, antes mesmo de finalizarem a tal negociação, saíram oferecendo às revistas Época e Istoé o tal dossiê. Se não foi isca dos “tucano- pefelê”, oferecida pelos Vedoim, para pegar gente do comitê de Lula, evidentemente, a informação sobre o dossiê deve ter chegado aos comitês de campanha de José Serra e Geraldo Alckmin por intermédio dos repórteres das revistas, que certamente queriam ouvir o outro lado da história ou apimentar a disputa eleitoral que antes andava modorrenta. E então, para o flagrante nos “assessores”, deve ter sido num átimo. O que deixa intrigada a maioria dos petistas é que o partido tem excelentes quadros para trabalhar na campanha e são preteridos para dar lugar a pessoas capazes de trapalhadas como essa.



Laurez Cerqueira é jornalista e escritor, autor de “Florestan Fernandes vida e obra” e “Florestan Fernandes – um mestre radical.”

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